A Sumiko na vida da Áurea Lopes Piacitelli
Entre os luzeiros do céu infinito descobri, através de dois livros da escritora Áurea Lopes Piacitelli, a sua personagem inspiradora chamada Sumiko
Há fatos registrados à nossa existência que só podemos crer pela fé ou crença de uma luz divina que ilumina os acontecimentos. Entre os luzeiros do céu infinito descobri, através de dois livros da escritora Áurea Lopes Piacitelli, a sua personagem inspiradora chamada Sumiko. Não é ficção e nem fruto da sua imaginação. A Sumiko é, na vida da autora, uma personagem real que lhe apareceu, segundo ela relatou na obra, por uma luz abençoada.
Áurea, de saudosa memória, viveu 93 anos entre nós. Sorocaba foi o berço da sua família, representada por quatro filhos e seu marido. Eu não a conheci pessoalmente, mas na leitura dos dois volumes do livro com título “Sumiko” fiquei impregnado por tanta sinceridade e emoção transmitida nas 700 páginas.
Cada página foi escrita originalmente pela dona de casa Áurea em seus momentos de diálogo com Sumiko, que surgia na alma do seu ser. Nas contracapas dos livros há explicação de que essa história real ocorrida durante décadas na vida da Sumiko seria publicada pela escritora Áurea ou seus descendentes. Confesso que degustei todas as páginas viajando na narrativa impressionante da escritora que tinha apenas o terceiro ano escolar. As centenas de folhas de cadernos onde a Áurea Piacitelli colocava as suas anotações foram acumulando em anos de mensagens recebidas da Sumiko, uma jovem que nasceu e morava nas ilhas de plantações de arroz do Japão.
Seguindo as tradições milenares da terra do sol nascente, a mocinha nipônica teve que se casar com quem o pai dela escolheu. Um rude fazendeiro, pescador de lagosta e plantador de arroz, que a desprezou como esposa e somente a usou para procriar os seus filhos. No restante do ano o marido viajava para outro vilarejo onde mantinha uma segunda mulher. Vivendo em situação de pobreza com os filhos, o Kako, cãozinho amigo e, recebendo ajuda do Keiko, um pai e “anjo” morador que vivia na região e que tinha muita sabedoria divina.
A Sumiko vivia só e encaminhava os filhos à escola do vilarejo. Sem que ela pudesse imaginar estaria com esse gesto preparando os futuros doutores de sua família. Enquanto isso, Sumiko fazia o seu trabalho extasiante, tratando de porcos, aves, descascando milho e cozinhando abóboras, mesmo durante as suas mais de doze gravidezes, conta Áurea. Com filhos pequenos, enferma devido à friagem de estar molhada diariamente na garoa fina do inverno, a jovem mãe ainda em dieta trabalhava na colheita de arroz.
A filha Luciá Piacitelli Thomé destaca que a mãe, Áurea, foi uma mulher ousada para o seu tempo de infância e juventude e, como adulta, em casa, sempre que possível deixava a cozinha muitas vezes sem arrumar e se entregava ao prazer de escrever. Centenas de páginas de cadernos eram tocadas pelas mãos e canetas da escritora anônima Áurea Lopes Piacitelli. As filhas, Luciá e Leni Palmira Piacitelli, encontraram todo esse registro cultural da mãe e não tiveram dúvidas: “Vamos transformar em livros” e cumprir o prometido à Sumiko.
A neta Fábia Piacitelli, ao comentar sobre o carinho que sentia pela avó, destacou: --- “Achei lindo e compartilho com todas as mulheres de fibra, guerreiras, fortes, determinadas”. “Assim é a minha avó Áurea, uma mulher à frente do seu tempo, visionária, inteligente, sábia, um ser especialmente caridoso, de uma bondade sem explicação. De uma espiritualidade doce, ela é uma mulher de uma fé infinita”. A sobrinha Sandra Moraes registou a foto que
ilustra este artigo, com a tia, mãe e avó maravilhosa, mulher com olhar penetrante de luz de sol e com brilho da lua cheia.
O filho, Luiz Piacitelli Júnior, com gratidão às irmãs, citou: ---“Parabéns as minhas irmãs, Leni e Luciá, pelo esforço, trabalho e tanta dedicação em trazer a público essa maravilhosa obra da minha mãe falecida em 2018. Infelizmente, o nosso irmão Lourival Piacitelli, falecido em 2021 não pode conhecer essa história da família.
A professora aposentada Maria Antônia Costa, amiga da família Piacitelli e entusiasmada pelos escritos da dona Áurea, sugeriu este tema para o meu artigo. As edições serão lançadas no salão nobre da Fundação de Desenvolvimento Cultural (Fundec), localizado à rua Brigadeiro Tobias, 73.
Posteriormente, os livros também estarão à venda em livrarias. Li os dois volumes com as suas 700 páginas de intensa beleza e sensibilidade da autora. Considero como um dos melhores livros que conheci de quem dizia na sua simplicidade que tinha apenas “uma pontinha de alfinete literária”. Hoje, Sumiko e Áurea devem estar lendo os livros em suas dimensões espirituais debaixo de uma cerejeira.
Vanderlei Testa(artigovanderleitesta@gmail.com) É Jornalista e Publicitário. Escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul