Prosa de Ano-Novo

Estou dizendo que o milagre contém sua contradição. Para ter sabedoria, eu tive de errar (e muito)

Por Cruzeiro do Sul

 

“Bailando no ar”, geme, inquieta, a cifra 2023. Sobrevivemos a um ano complexo e desafiador. Viva!

Proponho uma metamorfose: só hoje, por graça dos deuses, você terá 23 anos. Todos assumiremos a plena juventude que nos permite entrar em todos os lugares, tanto pela idade legal como pela saúde.

Que delícia! Nada da garra impiedosa do tempo arranha seu rosto. Plena saúde! Vigor total! A pele vibrante dialoga com a energia. A vida pela frente e os planos, aos borbotões, na mente. Tenho 23 anos de novo!

Viajar sem levar remédios. Ler sem óculos! Noites sem refluxo. Comer sem engordar. Festas! Sexo! Descobertas! O brilho no olho restaurado e pleno. A camiseta branca e a calça jeans ficam perfeitas. Sem molduras, disfarces ou cenários. Eu teria madeixas! Homens cabeludos; mulheres sem necessidade de pintar regularmente seus fios.

O milagre precisaria ser ainda mais denso. Juventude com a renda da vida adulta e a sabedoria dos anos vividos! Teríamos mais cuidado com amores, valorizaríamos ainda mais as amizades, deixaríamos de ter atritos com os pais. Chefes chatos continuariam chatos; por outro lado, na perspectiva de tudo o que enfrentamos no futuro, aquele ser enérgico perderia muita força na nossa memória.

Chegamos ao centro da contradição do nosso milagre de Ano-Novo. Eu sei que não devemos perder tempo com festas grandes e de muitas pessoas, porque... já frequentei várias. Eu tenho consciência de que é melhor um jantar para quatro ou seis pessoas, olho no olho. No entanto, para ter chegado a essa conclusão, precisei viver festas com 200 convidados.

Houve um momento em que estar sozinho em uma sexta à noite era uma derrota para mim. Não sabia transformar solidão em solitude. Hoje, se me dizem que não há convites ou eventos na minha casa, em uma sexta, uma profunda paz me envolve. Imagino música, livros, chá, vinho, fotos antigas, decorar um poema ou ver obras de arte na internet. Para chegar a esse ponto, tive de aceitar convites ruins -- pelo medo de ficar sozinho. Acolhi, no passado, até companhias tóxicas. Foram décadas de aprendizado entre pouco mais de 20 e quase 60 anos.

Estou dizendo que o milagre contém sua contradição. Para ter sabedoria, eu tive de errar (e muito). Consegui não cometer os equívocos como drogas, mas derrapei em tantos outros. Sempre amei os livros. Será que, aos 23, eu saberia que eles são uma companhia tão extraordinária e estratégica?

Fui agraciado com bons amigos. Saberia dizer com equilíbrio que eles, de verdade, nunca seriam mais do que quatro ou cinco? Hoje eu sei que não adianta querer impressionar pessoas com carros, viagens e restaurantes luxuosos. Ou elas me amam (e isso é excedente), ou não me amam (e isso é insuficiente). Os presentes só somam com pessoas que valem a pena. Caso contrário, são gastos em cartão de crédito.

Querer ter 23, com o frescor da juventude, sem a amargura da experiência, é uma contradição insuperável. Parece ser um efeito sem causa; a busca de um resultado sem esforço. Talvez seja apenas um derivativo da intoxicação da festa de Ano-Novo. Quero ser o Ulisses, da “Odisseia”, na ilha de Calipso, em plena perfeição, sem o peso da Guerra de Troia na memória e... sem a ansiedade do retorno a Ítaca. Um herói só poderia existir com suas ações épicas. O interesse da ninfa em Ulisses nasce também da astúcia dada pela guerra e pelas navegações prévias. Uma velhice sem erros valeria a pena? Uma juventude sem a chance de experimentar seria a monotonia de um roteiro prévio? É complexa a questão.

Talvez seja melhor deixar assim. Irresponsabilidade com mais saúde na juventude, mas muita sabedoria com menor energia. Trata-se da ordem natural das coisas. Não sou tão fascinante que deva viver a minha biografia duas vezes.

Porém, a tentação persiste e faço um único pedido: quero voltar, ainda antes, aos anos 1960 e 1970 no Rio Grande do Sul. Especificamente, quero aconselhar minha mãe na praia de Tramandaí. Quero dizer a ela que os quatro felizes filhos que brincam nas areias do balneário não deveriam ficar expostos sem protetores solares. “A senhora ainda não sabe, mas o efeito é cumulativo. Em breve, surgirão muito produtos, e será consenso: os horários de sol são muito menores do que imaginamos hoje. A propósito, o bronzeador que a senhora traz da Argentina pode não ser tão saudável.”

Decidi: não quero ter 23 anos de novo. É cansativo retornar. Quereria apenas aconselhar minha mãe. “Sim, eles sobreviverão ao Ki-Suco e ao Mandiopã frito, mas ao sol...”

Em resumo, queridas mães e estimados pais: os filhos errarão, baterão forte a cabeça na dureza dos fatos. Eles tomarão decisões equivocadas aos borbotões. Apesar de tudo, insistam: “Sempre usem protetor solar... Quanto mais vocês se protegerem das luzes dos dias e das lâmpadas, mais dias felizes surgirão”.

Tudo é relativo na vida, menos o protetor solar. Desejo-lhes um ano de muita esperança no ciclo que recomeça.

Feliz ano-novo!

Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de “A Coragem da Esperança”, entre outros