Leituras estratégicas

Muitos clássicos exigem uma leitura atenta, lenta e (creiam!) valem a pena por isso mesmo

Por Cruzeiro do Sul

Líamos porque o professor nos obrigava. Lemos para dormir. Compramos livros para melhorar habilidades de trabalho. Lemos por deleite, por hábito ou, até, por tédio. Que tal ler por estratégia?

Estratégia indica caminhos possíveis no futuro e antecipa problemas. É tática militar que pode ser aplicada à vida pessoal

Exemplo? Vivemos no mundo de robôs e de algoritmos. Domina o conceito de Big Data? O livro que mais me ajudou nisso, neste ano, foi “Algoritmos de destruição em massa”, de Cathy O’Neal (Editora Rua do Sabão). Se você percorrer, com atenção, as ideias da pesquisadora, terminará o livro com um pouco mais de conceitos estratégicos, bem como algumas inquietações sérias sobre nossa democracia.

Gosta de biografias? Há uma personagem histórica fundamental, pouco analisada na nossa história: Marechal Henrique Lott. A biografia “O soldado absoluto” (Wagner William, ed. Record) preenche a lacuna. No campo “narrativas autobiográficas”, Drauzio Varella mostra sua maturidade como escritor, no livro “O exercício da incerteza” (Companhia das Letras). Ainda com descrições de si, aprendi muito com o “Diário confessional de Oswald de Andrade” (Cia das Letras). Manuel da Costa Pinto fez a seleção que ilumina muito sobre a visão do homem-chave da Semana de Arte Moderna.

Que tal fazer uma viagem sobre si pela mão de Homero? Dante Gallian lançou “É próprio do humano” (ed. Record): doze lições, sobre a “Odisseia”, que me fizeram pensar muito. No mesmo caminho, um livro que existe há mais tempo faz uma reflexão filosófica sobre conhecimento de si e dos valores de vida: “Aprender a viver - Filosofia para os novos tempos” (Luc Ferry, Objetiva). É um exercício de clareza exemplar sobre a arte de viver com mais consciência.

Por fim, nada mais estratégico do que se lançar na aventura de um clássico. Uma obra de referência ajuda a ampliar a visão de mundo e prepara para a batalha da existência. Muitos clássicos exigem uma leitura atenta, lenta e (creiam!) valem a pena por isso mesmo. Escolha um bom texto de Machado de Assis. Sugiro “O alienista”, excelente para ano eleitoral. Entregue-se ao deleite!

Uma peça de Shakespeare? Se o tema é política, “Ricardo III” ou “Macbeth”. Nunca leu “A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector? É uma falha na sua vida. Comece hoje! Quem não lê fica para trás, involui. Ler é uma grande esperança estratégica.

Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de “A Coragem da esperança”, entre outros