Hóspede da alma

O Espírito Santo introduz, portanto, "nas profundezas de Deus". Faz com que o cristão pense do mesmo modo que Deus

Por Cruzeiro do Sul

Dom Júlio Endi Akamine.

 

Normalmente um hóspede fixa residência lá onde pode encontrar um espaço acolhedor. Tal espaço preexiste ao hóspede, mas, quando o Espírito Santo vem habitar em nós, cria Ele mesmo um espaço interior.

Por que é importante esse espaço interior? Porque nós temos a tentação de colocar toda nossa vida na relação com o mundo externo, de nos abandonar às solicitações de toda espécie que dele vêm, de dedicar todas as nossas energias em atividades susceptíveis de resultados imediatos e tangíveis. O Espírito Santo, porém, intervém, orientando a nossa atenção em direção ao mundo interior que Ele mesmo cria em nós.

Ele nos inspira a insatisfação com uma vida gasta unicamente em atividades externas, uma vida sem consistência, que se perde e se dissipa; e nos dá, ao mesmo tempo, a sede de recolhimento, a vontade de parar a corrente de atividades que nos arrasta; inspira-nos o gosto por um silêncio, que seja a suspensão dos rumores que nos ensurdecem; estimula-nos a fechar os olhos para contemplar a realidade espiritual; a cerrar os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus; a fechar todas as portas de nossos sentidos para que se abra a nós o mundo invisível.

É significativo o fato de que, no início da vida pública, Jesus tenha sido guiado pelo Espírito Santo para o deserto (cf. Mt 4,1; Mc 1,12; Lc 4,1). A sua missão era de ir aos homens, mas o Espírito Santo, que preside a missão salvadora, o conduz antes de tudo para a solidão. Antes de se dedicar totalmente ao apostolado, Cristo passa quarenta dias em recolhimento total, e vive exclusivamente no mundo interior e na contemplação do Pai. O Espírito Santo suscita em Jesus o espaço interior, antes de inspirar-lhe a atividade pública.

No recolhimento, o Espírito Santo confere à alma uma maior profundidade, permitindo-lhe tomar consciência da misteriosa riqueza concedida pela inabitação das três pessoas divinas. O Espírito Santo não quer que esta presença seja sufocada por pensamentos mundanos e que, por isso, não seja percebida. O espaço interior que Ele cria tem, exatamente, o objetivo de focalizar o Filho e o Pai, permitindo à pessoa contemplá-los e apreciar a companhia deles.

Com o recolhimento, enfim, Ele concentra toda a pessoa sobre aquilo que é unicamente necessário e a faz viver em plenitude “a vida em Cristo” (cf. Rm 8,2); uma vida, como Ele ensina, escondida e que assim deve permanecer enquanto somos peregrinos; uma vida que é inevitavelmente uma morte ao mundo. “Vós estais mortos, e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). O Espírito Santo, portanto, esconde a nossa vida, faz com que ela desça às profundidades invisíveis para imergi-la mais completamente na vida divina.

Criando um espaço interior, o Espírito Santo permite ao ser humano receber a luz divina, refletir e julgar serenamente em termos sobrenaturais. Por isso, entre as qualidades que o profeta Isaías tinha reconhecido no Messias, como conferidas pelo Espírito Santo que repousava sobre ele, a sabedoria ocupava um lugar importante sob diversos nomes: inteligência, conselho, conhecimento (cf. Is 11,2).

Dando ao ser humano olhos para ver aquilo que por si só não teria visto e ouvidos para entender o que não teria entendido sozinho, abrindo a sua inteligência e o seu coração às coisas que não teria podido compreender naturalmente, o Espírito Santo comunica uma sabedoria que se funda sobre todo o conjunto do plano salvador de Deus e permite colocar cada realidade particular na visão panorâmica que Deus tem de todas as coisas.

O Espírito Santo introduz, portanto, “nas profundezas de Deus”. Faz com que o cristão pense do mesmo modo que Deus; concede-lhe aquela retidão de valores e de juízo que pode ser chamado de bom senso sobrenatural.

O bom senso sobrenatural, repousando sobre o poder de Deus, aconselhará, por exemplo, sacrifícios que seriam repugnantes ao bom senso natural; aprovará atos de generosidade e audácias apostólicas que espantam a razão simples. Por isso o bom senso dos santos não coincide com o de muitos: as profundezas de Deus superam, de fato, tudo aquilo que o homem por si só pode conceber.

Doce Hóspede da alma, vinde! Por ti, conheçamos o Pai e o Filho!

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba