Os choques do governo

É muita desgraça junta. Ficou mais difícil navegar. No entanto, a qualidade do piloto é avaliada não quando o mar está tranquilo, mas pelo seu comportamento no meio da borrasca

Por Cruzeiro do Sul

Celso Ming

Há quem argumente que não se pode ser tão crítico da política econômica do governo Bolsonaro, porque é preciso levar em conta os enormes choques a que foi submetida.

Vamos aos choques e, depois, à questão da qualidade da administração da economia.

O primeiro grande choque foi a Covid-19 que atingiu em cheio tanto as condições de saúde da população como as da economia. A necessidade de quarentenas paralisou o comércio, os serviços, a produção e o emprego. Os fluxos de produção e distribuição da economia mundial se desorganizaram. Os navios permaneceram nos portos, muita linha de montagem parou por falta de insumos. Sem produção, a inflação global disparou.

O segundo grande choque teve origem climática. Faltou chuva ao longo de 2020 e 2021, os reservatórios das hidrelétricas se esgotaram, foi preciso acionar termoelétricas a custos muito altos. Os preços da energia dispararam e a economia teve de enfrentar mais incertezas.

O terceiro choque sobreveio com a guerra da Ucrânia. Os preços do petróleo dispararam. Nas últimas três semanas, as cotações do barril do Brent chegaram a se aproximar dos US$ 140. No Brasil, os preços da gasolina decolaram para acima de R$ 7 por litro. Depois de cinco anos, a inflação volta aos dois dígitos. Os juros básicos (Selic) chegaram a 11,75% ao ano. Os prognósticos são de crescimento do PIB do Brasil, em 2022, oscilante em torno de zero por cento.

As sanções impostas à Rússia voltaram a desorganizar os fluxos de produção e distribuição de mercadorias e serviços. A inflação global entrou em escalada. Os grandes bancos centrais passaram a puxar pelos juros a atividade econômica global, que mal se recuperava dos impactos da Covid, voltou a derrapar.

É muita desgraça junta. Ficou mais difícil navegar. No entanto, a qualidade do piloto é avaliada não quando o mar está tranquilo, mas pelo seu comportamento no meio da borrasca. E é o que tivemos e o que temos. A Covid encontrou um presidente negacionista, contrário ao isolamento social e às vacinas. Ainda assim, o Brasil figura entre os países mais vacinados.

O enfrentamento da crise energética consistiu apenas na distribuição de contas mais altas ao consumidor. Não contou com uma política de racionalização do consumo. E só não foi pior porque ao longo do período, os preços do petróleo se mantiveram achatados. O governo não aproveitou a oportunidade para reforçar os investimentos em energia renovável.

O presidente ignorou as advertências e, na antevéspera da eclosão da guerra, fez mais do que simples gestos de aproximação com o presidente Putin. A maneira como enfrenta o choque do petróleo é confusa. Embora agressivamente contrário à política de preços da Petrobras, não foi capaz, até agora, de encontrar substitutivo e se contenta em fritar a empresa e o seu presidente, o general Joaquim Silva e Luna.

Celso Ming é jornalista e comentarista de economia