Meio Ambiente

Plástico já está no corpo humano

Biólogo alerta para os perigos que o resíduo leva para a natureza, animais e até para as pessoas
Animais são diretamente prejudicados como a garça que ficou com o bico preso por um lacre plástico por dias – Foto: Fábio Rogério (10/12/2018)

Os animais estão sofrendo com a falta de consciência das pessoas que descartam seu lixo irregularmente, mas as pessoas também. Os plásticos, que até então matavam baleias, tartarugas marinhas e peixes, já estão no corpo humano. E indo para os bebês. Pesquisadores do Canadá estudaram o cordão-umbilical de recém-nascidos e revelaram que os bebês estão expostos a mais de 100 substâncias químicas não pertencentes ao corpo humano, entre elas o plástico. Isso ocorre porque o peixe ingere o plástico e as pessoas se alimentam de peixe. Esse alerta é feito pelo biólogo Demis Lima, especializado em educação ambiental e botânica.

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Conforme o especialista, Sorocaba ainda tem muito a melhorar no que diz respeito à conscientização ambiental. Demis levou a reportagem até um local onde é costumeiro as pessoas jogarem lixo: a Área de Preservação Permanente (APP) do Jardim Itanguá. Ali tem um córrego e é surpreendente a quantidade de sujeira que as pessoas jogam. A limpeza é constante, mas a Prefeitura não vence. No dia que foi feita a fotografia, foram encontrados copos plásticos, caixa de madeira, caixas de papelão e restos de móveis. Toda a sujeira vai diretamente para o rio.

Demis lamenta que o problema não esteja apenas nesse local, mas espalhado pela cidade toda, incluindo os parques. Os exemplos são vários como o ocorrido no final do ano passado quando uma garça ficou por dias com o bico preso por um lacre de plástico. O socorro ao animal mobilizou funcionários do zoológico, da Secretaria do Meio Ambiente e até dos Bombeiros.

Demis Lima aponta que o descarte irregular do lixo leva uma enorme quantidade de plástico para a natureza – Foto: Fábio Rogério (24/05/2019)

A irresponsabilidade não é só do sorocabano, do brasileiro, mas do mundo todo. Ele cita uma reportagem publicada pela ong brasileira O Eco, que fala sobre uma expedição realizada pelo oficial aposentado da Marinha dos Estados Unidos, Victor Vescovo. Victor alcançou o ponto mais extremo do Pacífico, a Fossa de Mariana, mas com isso ele descobriu algo nada animador: até no mais fundo do mar (11 mil metros em relação à superfície) há sacolas plásticas e embalagens de doces.

Uma pesquisa, publicada pelo mesmo site, alerta para o rápido crescimento da produção de plástico no mundo. São 400 milhões de toneladas por ano. E a responsabilidade não é só de quem joga lixo no chão. Demis afirma que a maioria dos navios despeja resíduos no mar. “Fui para Abrolhos (na Bahia) ajudar um amigo em uma pesquisa de mestrado e verificamos que chegavam na praia embalagens do mundo inteiro, o que significa que o nosso lixo também está indo parar em outros lugares.”

Em março, cita Demis, uma baleia foi encontrada em Mabini, na costa das Filipinas, morta com 40 quilos de plástico em seu estômago. “O plástico é um polímero, portanto não é digerível”, lembra Demis. A baleia morreu de desidratação e inanição e vomitou sangue antes de morrer. “O plástico boia igual água viva e como é transparente, induz os animais a ingerir.”

Ainda de acordo com Demis, muitos plásticos se juntam no oceano, formando ilhas flutuantes.

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Uma pesquisa feita em 2015 e publicada pela revista científica Science divulgava que a humanidade gera um total de 275 milhões de toneladas de resíduos plásticos por ano — e entre 4,8 milhões e 12,7 milhões de toneladas chega aos oceanos. Além dos danos físicos a animais, o plástico, quando nos oceanos, pode liberar elementos químicos que são cancerígenos e causar distúrbios hormonais.

De acordo com um estudo feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), somente o Brasil produz mais de 11 milhões de toneladas de lixo plástico por ano. É o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. A poluição pelo plástico, informa a WWF, prejudica a qualidade do solo, do ar, e de sistemas de fornecimento de água.

Demis esclarece que os plásticos contêm compostos que são considerados xenoestrógenos, ou seja, substâncias estranhas e invasoras do organismo, que comprometem o funcionamento dos hormônios e das células. “Pode estressar o organismo, parar os rins… Se o corpo conseguir eliminar é bom, mas se não conseguir, a pessoa morre”.

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Peixes de Sorocaba são afetados

No rio Sorocaba, há alguns trechos em que a pesca é permitida, da ponte do Pinga-Pinga até o Parque das Águas, porém o conselheiro do meio ambiente Welber Smith, que há 26 anos faz pesquisa na bacia do rio Sorocaba, não recomenda o consumo.

De acordo com seus estudos, foram detectados microplásticos nos peixes de Sorocaba. “Então ainda tem algumas coisas para resolver com relação ao rio”, diz. Isso tem acontecido por causa do lixo descartado irregularmente pela população, e que chega ao rio, poluindo sua água.

Alunos de Welber, do mestrado e de iniciação de pesquisa, costumam fazem coletas periódicas de água, de sedimento e peixe no rio Sorocaba. “Temos licença para isso e levamos para o laboratório para análise. “A princípio não recomendamos o consumo de peixe por conta de algumas contaminações no trecho que corta o município de Sorocaba e Votorantim.”

Confira a série de reportagens sobre o Meio Ambiente produzida pelo jornal Cruzeiro do Sul.

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