CULTURA

Telas do artista Pedro Lopes retratam a história de Sorocaba


"Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia." O conselho do escritor russo Leon Tolstoi (1828-1910) foi seguido de modo literal, com tinta a óleo, pelo artista plástico sorocabano Pedro Lopes. Entre 2000 e 2005 o pintor, hoje com 67 anos, produziu vinte painéis de grandes dimensões (2,50 por 1,90 metros) que retratam cronologicamente a história de Sorocaba até os dias atuais. Inédita até o momento, a série completa, produzida com fomento da Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba (Linc), poderá ser finalmente contemplada pela população na exposição "Yby Soroc", que será aberta sábado (11) no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs).
Primeira exposição individual de Pedro Lopes após um hiato de 30 anos, "Yby Soroc", título tupi que significa "terra rasgada", reúne vinte painéis que revisitam a história de Sorocaba -- desde mais de um século e meio antes de ser formalmente fundada por Baltasar Fernandes, em 1654, até o início do século 21 -- e monumentalizam episódios decisivos e personagens determinantes na epopéia de construção e progresso da cidade.






Na série, a representação de cada acontecimento histórico está relacionada com as concepções estilísticas das artes pictórias predominantes de seu respectivo período. Desde o Maneirismo, cujos expoentes são Parmigianino (1503-1540), Pontormo (1494-1556) e Tintoretto (1518-1594) e o Barroco, de Caravaggio (1571-1610) e Rembrandt (1606-1669) à Transvanguarda e o Neoexpressionismo atuais. "Os vários estilos encontrados na história da arte são mais que representações de época. Consistem na materialização dos ideais, dos modos de vida e do momento cultural de uma sociedade", afirma Lopes.

Duas galerias

Dividido em duas galerias, cada uma com dez painéis dispostos no cronologicamente no sentido horário, o espaço expositivo do Macs convida o público sorocabano a redescobrir a história da cidade, se identificar e, até mesmo, se inserir nas narrativas retratadas. Isso porque as imagens, a exemplo das famosas pinturas históricas como a "Batalha dos Guararapes" do brasileiro Victor Meirelles, oferecem iconografias de fácil retenção na memória do observador, capazes de ficarem enraizadas no imaginário coletivo dos sorocabanos. "O objetivo [da série] é a valorização e desenvolvimento do espírito de cidadania, de civilidade, de amor pelo lugar em que você se encontra", diz o artista.

A pesquisa histórica percorrida pelo artista teve o respaldo de dois amigos, o historiador sorocabano Adolfo Frioli e o médico e pesquisador José Carlos de Campos Sobrinho, ambos autores do livro "João de Camargo: o nascimento de uma religião de Sorocaba", que serviu de base para o roteiro do filme "Cafundó" (2005), de Paulo Betti. "Essa obra é uma síntese da história de Sorocaba através de um personagem. A partir desse livro eu comecei a me ligar nesse caminho, da universalidade para um evento regional, local."

Antes de se transpor para o passado da cidade, por meio da contemplação dos quadros, o visitante pode assistir ao documentário em longa-metragem, com 1h30 de duração, "Be, was, being - Yby Soroc", dirigido por Chores Rodrigues, no qual Pedro Lopes detalha o processo de criação e informações sobre os painéis. A título de curiosidade, antes de empunhar o pincel, Lopes modelou dezenas de esculturas em argila "apenas para materializar os traços dos principais personagens pintados", revelou ao Mais Cruzeiro, enquanto os painéis ainda estavam guardados em sua casa/ateliê, no Jardim América. Vale dizer que os capítulos mais marcantes ocorridos dentro de um mesmo período -- como no 14ª painel da série, que compreende os anos de 1900 a 1915 e retrata o assassinato do Dr. Braguinha, a chegada da luz elétrica e do primeiro automóvel, por exemplo -- dividem os espaços, gerando sensação de simultaneidade mais próximo à de uma sinfonia, com melodias e contracantos, do que de um filme, ainda que dinâmico, aprisionado na linearidade de cada frame.

A exposição "Yby Soroc" segue até 6 de outubro. A visitação funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 17h, e aos sábados e feriados, das 10h às 15h. A entrada é gratuita. O Macs fica localizado na avenida Afonso Vergueiro, 280, ao lado da antiga Estação Ferroviária de Sorocaba.

Traços marcantes contribuem para retratar a dinâmica de uma cidade


Telas estão expostas no Macs, a partir de amanhã, até o dia 6 de outubro - FÁBIO ROGÉRIO Telas estão expostas no Macs, a partir de amanhã, até o dia 6 de outubro - FÁBIO ROGÉRIO


O texto de apresentação da exposição, assinado pelo curador, museólogo e diretor artístico do Macs, Fábio Magalhães, destaca que atualmente são raros os artistas que se voltam para a pintura histórica e Pedro Lopes "devota-se a ela do modo vigoroso", já que a superfície dos painéis também é alvo de intervenções de grafite. "São traços rápidos, contundentes, alguns agressivos, que contestam a narrativa. Desse modo, o artista questiona a interpretação histórica e sua própria linguagem", escreve. Magalhães afirma que a pintura histórica teve seu apogeu nos séculos 18 e 19, sendo chamado pelo pintor inglês Joshua Reynolds (1723- 1792), de "grand manner" -- gênero que tratava de grandes feitos e de personagens extraordinários. "Contudo, não há apologia nas telas "Yby Soroc". Seu realismo é cruel, às vezes sarcástico", diz.

O sarcasmo da série se traduz inclusive no título de cada um dos painéis, como "Certeza sem saber", que compreende o período entre 1532 e 1580, de procura obstinada e cobiça desmedida por ouro na região -- mais especificamente com as expedições após os primeiros relatos de suposta concentração de "metal amarelo" em Araçoiaba, morro que esconde o sol -- e "Assim na Terra como no Céu", que retrata o período conflituoso entre os herdeiros de Baltasar Fernandes e os monges do Mosteiro de São Bento gerado pela a disputa pelos limites da terra.

Segundo Lopes, em todas as fases da história de Sorocaba, é possível constatar que sua aldeia não é definida simplesmente como um território, mas também uma arena de disputas onde as coisas efetivamente acontecem. "Os conflitos sempre existiram e estão retratados [na série] e é isso que promove a dinâmica da cidade. Um território vivo está sempre constante mutação." Na avaliação do artista, as obras viabilizadas com recursos públicos, por meio da Linc, podem oferecer diversos desdobramentos de caráter pedagógico para todas as idades, sendo um gatilho lúdico que desperta o interesse pelo estudo da história da cidade e das artes, por exemplo.

Segundo a presidente do Macs, Cristina Delanhesi, após o término da exposição o museu firmará um termo de parceria com a Prefeitura de Sorocaba, para que as obras fiquem sob a guarda da instituição. Selecionado e premiado em importantes salões internacionais de arte contemporânea nas décadas de 1980 e 1990, Pedro Lopes conta que o desejo literal de pintar a sua própria aldeia, Sorocaba, era alimentado desde a juventude, quando se mudou para São Paulo para cursar Licenciatura em Desenho e Plástica na Faculdade Belas Artes, onde foi professor entre 1976 e 1986 e até hoje é reverenciado como "mito" por ex-alunos destacados como Lourenço Mutarelli. "Desde que eu voltei a Sorocaba, resolvi fazer somente coisas partindo de Sorocaba, do mundo que eu vivo e não de algo idealizado. O idealismo surge da vivência que eu tenho aqui. Afinal de contas, se o mundo é uma bola, qualquer lugar é o centro", finaliza.