SOROCABA E REGIÃO

Formação de professores deve ser prioridade


O assunto de hoje é muito sério e esta reportagem deve ser lida com atenção redobrada. Está na hora de parar tudo e rever aquilo que é prioridade, só assim será possível dar o salto que o Brasil precisa na área da Educação. É o que apontaram pesquisadores da área durante o 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido na segunda e terça-feira em São Paulo, pela Associação de Jornalistas de Educação, a Jeduca. O evento reuniu especialistas da área para discutir um tema considerado pela população como um dos mais importantes do País, ao lado da Saúde. Todas as declarações convergiram para um único ponto: é preciso melhorar a formação dos professores. Sem isso, não adianta mudar todo o resto.

Há muito o Brasil vem discutindo melhorias na Educação e tem implantado, ao longo dos anos, cada vez mais avaliações para ter referências de como anda a situação do ensino em cada unidade escolar. Agora, a fase é de construir a Base Comum Curricular Nacional (BNCC). Mas a grande constatação é que nada surtirá efeito se não existir um olhar para quem forma os formadores.

Conforme a coordenadora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV no Rio, Claudia Costin, que foi ministra da Administração e Reforma do Estado, Secretária de Cultura do Estado de São Paulo e Secretária Municipal de Educação do Rio, é preciso investir na formação de professores e na atratividade da carreira, pois além dos baixos salários, perdeu-se a respeitabilidade. "A formação tem sido excessivamente teórica e não na prática. Quando o antigo magistério foi para a universidade, aconteceu o que Darcy Ribeiro [antropólogo] previa: a universidade iria formar apenas pesquisadores em Educação e não pessoas capacitadas para as necessidades dessa profissão."

Para Claudia, cometemos um erro. "Investimos primeiro numa universidade gratuita, quando não tínhamos nem o ensino universal. Defendemos a ideia que o ensino superior iria formar uma elite "iluminada", que ajudaria no desenvolvimento dos demais, mas essas pessoas ficaram ciosas de seus privilégios e contra o acesso dos mais pobres à Educação", disse, informando ainda que na Índia ocorreu o mesmo. "O que houve foi um erro histórico. E agora, como corrigir? Não é cobrando universidade dessas pessoas", reflete.

A coordenadora na FGV lembra que quando se fala de formação continuada para o professor, todo mundo pensa em mestrado e doutorado. Mas não é isso. "Aí não vão mais querer estar no chão da escola, então a solução é mestrado profissional." De acordo com Claudia, investir na educação infantil é o que dá mais retorno. "O próximo presidente deveria olhar para isso, para a implementação da base na educação infantil. Estados como Ceará, Goiás e Espírito Santo estão colaborando para traduzir a base em currículo. Se o novo presidente quiser acertar, tem de investir nisso e deve ser prioridade", disse.

Interesse real

"A formação tem de ser revista em todas as etapas, inclusive a formação dos futuros gestores escolares", reconheceu o ministro da Educação, Rossieli Soares, que assumiu o cargo em abril. Questionado sobre o motivo do Ministério da Educação (MEC) ter pedido para adiar o prazo para a mudança na formação dos professores, Rossieli justificou que não adianta a discussão ficar restrita a aumentar o tempo de faculdade, e continuar fazendo mais do mesmo. "É preciso construir isso em colaboração com a sociedade."

Para Rossieli em primeiro lugar vem a valorização do professor, são só com relação a salário mas também com a formação. O ministro disse isso em meio à polêmica sobre a possibilidade de corte no orçamento da Educação, o que afirmou ser contra. Rossieli ainda destacou que apesar do Brasil ter conseguido colocar a criança na escola, está falhando nesse processo, porque elas estão sem aprender. "Já os jovens estão fora do ensino médio: 80 milhões de brasileiros não concluíram essa etapa entre 15 e os 30 anos de idade, o que é um absurdo, e mais, 28% nem está entrando no ensino médio. Dos que entram, uma boa parte não conclui", disse, sobre a necessidade de mudanças na Educação.

No entanto, conforme a professora Bernadete Gatti, pós-doutora pelas universidades de Montreal e Pennsylvania State, presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e vice-presidente da Fundação Carlos Chagas, é difícil encontrar no governo interesse real para que a educação vá para frente. "A história da Educação do Brasil é como a história do professor. Falo isso porque quero desfazer o mito que o professor já foi valorizado. Nossa educação sempre foi organizada pelas oligarquias, que não queriam que o povo aprendesse." Bernadete ressalta que, quando decidiram formar professor de educação em faculdade, esses alunos passaram a receber apenas uma "tinturinha" de didática. "Por que é que nunca vemos a formação do professor como importante para criação de uma Nação?", questiona.

Outra observação feita pela pesquisadora é que 70% dos professores de Pedagogia são formados atualmente por EaD (ensino à distância). A Pedagogia é voltada ao ensino infantil, o que significa que o profissional precisa aprender a lidar com bebês. "Não está formando para nada esse curso. Educação é humano com humano", critica.

Para ela, não adianta investir em reforma do ensino e recursos tecnológicos enquanto as universidades não formarem o profissional professor. "Conseguimos levantar qual é a formação dos formadores de professores, e a maioria não tem licenciatura." Lembrando que a licenciatura é indicada para quem quer ser professor e dar aula para o ensino fundamental e médio. "As licenciaturas nunca foram valorizadas nas universidades. O resultado é que 45% das crianças de 8 anos não são capazes de escrever uma frase simples. O curso de Pedagogia é um absurdo. Precisamos encarar isso de frente."

Congresso

O 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação ofereceu aos jornalistas, estudantes de jornalismo e educadores, 28 atividades entre debates, plenárias e oficinas práticas sobre os desafios da cobertura de educação no Brasil, especialmente nas eleições. Os temas discutidos no primeiro dia foram: “Eleições 2018: cenário, desafios e possibilidades”; “A educação e o xadrez político e governamental”; “A educação nas eleições: debate com representantes dos candidatos”; “Jeduca entrevista: ministro da Educação”; “O que acontece no chão de escola a cada mudança de gestão?”; “Saga da inclusão: os desafios da universalização da educação”; “A cobertura de educação nas eleições de países latinos”; “Fact checking sobre educação - Especial eleições”; “Grandes reportagens de educação”; “Ensino superior: como o próximo governo pode expandir com qualidade?”; “Profissão: docente. O professor na sociedade e na mídia”; “O PIB e a educação. O peso da educação na economia. E o jornalista com isso? “; e “Tecnologia e inovação na educação”. 


No segundo dia, os assuntos foram “O que podemos aprender com o fenômeno Trump?”; “Como a educação pode se projetar na cobertura de eleições?”; “Olhar estrangeiro: as reformas educacionais”; “O universo de educação no cinema: o que podemos aprender?”; “A escola que quero. A visão do estudante”; “A percepção do público sobre o noticiário de educação”; “Como investigar grandes bases de dados de educação?”; “Plano Nacional de Educação: Por que o país está deixando seu plano de lado?”; “Como fiz meu TCC sobre educação”; “Financiamento da educação: o novo Fundeb no novo governo”; “Aprofundamento da sessão sobre percepção do público sobre jornalismo de educação”; “De olho no Legislativo”; “Como cobrir uma campanha em que a discussão moral pode prevalecer sobre a educação”; “Educação e federação: Regime de colaboração e Sistema Nacional de Educação”; “A expansão de vagas e o debate da qualidade na educação infantil”; e “Lei de Acesso à Informação e a cobertura de educação”. Saiba mais sobre os especialistas que participaram em http://congresso.jeduca.org.br. Acompanhe a cobertura completa em http://jeduca.org.br.

* A reportagem esteve no congresso a convite da Jeduca e da Fundação Itaú Social, uma das empresas patrocinadoras do evento