ARTIGOS

Pilatear


Aldo Vannucchi

Estamos todos quaresmando até a Semana Santa, que culmina com a Páscoa. Nessa rota, antecipo aqui uma figura secundária, mas de presença sempre lembrada. Lembrada até no Credo: "padeceu sob Pôncio Pilatos". Por causa dele, apareceu um belíssimo anagrama, figura literária que consiste no rearranjo criativo das letras de uma palavra ou frase. Assim, Roma, por exemplo, vira amor e América vira Iracema.

Falo do anagrama de surpreendente beleza que se formou a partir da célebre pergunta do procurador romano a Jesus: QUID EST VERITAS? (O que é a verdade?). Alguém mexeu nas letras e a resposta brilhou como um raio: EST VIR QUI ADEST (É o homem aqui presente). Nem precisou resposta, porque Ele é a própria verdade em carne e osso.

Pelo que consta, Pilatos não se agastou com o silêncio de Jesus, antes procurou salvá-lo dos grandes da cidade. Proclamou seis vezes que o Mestre era inocente. Mas acabou contrariando a própria consciência e vontade e o entregou à sanha da turba. Temendo ser denunciado como traidor dos interesses do Império, lavou as mãos e se tornou o símbolo de todos os covardes.

Infelizmente, covardes traidores da verdade aparecem em todos os tempos. Atualizam a origem da palavra covarde, do francês couard, epíteto dado a cães medrosos que, assustados, põem o rabo entre as patas. Pilatos acovardou-se e saiu de fininho, como fazem todos os que dissimulam a verdade, enrustidos nas aparências. Hoje, condicionados por uma sociedade atravessada pela tecnologia, tornou-se fácil e tentador "pilatear" do jeito pós-moderno, ou seja, trair a verdade por meio dos sistemas informáticos. Predomina, atualmente, um falso e perigoso poder digital, mais voltado a exaltar as aparências do que a manifestar a pura realidade. Fica-se, assim, muito longe daquele conceito tão claro de verdade, definido na antiga filosofia grega como aleteia, isto é, desvelamento do real.

Desvelar, tirar o véu que cobre os fatos, as pessoas e as coisas, hoje em dia, é tarefa permanente, tal o assédio mental que sofremos com tanta publicidade usada e manipulada pelo governo, pelas indústrias, pelas empresas publicitárias e pelos próprios movimentos ideológicos. Sob a euforia de que estamos conectados e abertos para o mundo inteiro, nos encontramos, na verdade, trancafiados, eletronicamente, em nós mesmos. Marqueteiros e máquinas envolvem-nos em falsos diálogos. Não tomam conhecimento das nossas perguntas. Impõem caminhos de acesso único, para você comprar, pagar e ser feliz...

Esse cativeiro a que nos reduz a tecnodependência lembra a prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica da Lava Jato. O sujeito, porque hiperconectado com tudo e com todos, se julga conhecedor da verdade e, na realidade, vítima da manipulação midiática, tem uma visão das coisas tão limitada como aquele réu tem seus passos restritos a determinado espaço.

A busca da verdade não é fácil. Como escreveu Hegel, "a verdade não é uma moeda cunhada, pronta para ser entregue e embolsada sem mais". Buscá-la talvez seja o móvel prioritário da existência humana. E a caminhada até ela custa, pois tem que começar pela denúncia dos erros pessoais e suas causas, pela análise das percepções dos nossos sentidos, da nossa imaginação, do nosso entendimento e das nosss paixões. Santo Agostinho que o diga.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br