ARTIGOS

De anônimas emponderadas


Edgard Steffen 

08 de março - Dia Internacional da Mulher

Procurei no dicionário. Emponderamento -- verbete inexistente. Ou minha versão do Houaiss está desatualizada, ou "emponderar e emponderamento" são neologismos que ainda não encontraram lugar entre dicionaristas. Você os encontra quase todo dia na mídia. Língua viva tem dessas coisas. Em todos os níveis, meus mestres da inculta e bela (e os tive de grande erudição e sabedoria) coibiam neologismos com o mesmo rigor com que proibiam estrangeirismos e gírias. Hoje, essa inflação de palavras novas introduzidas pela informática os escandalizaria.

Confesso-me humilde consumidor de leituras e sigo em frente. Li muita porcaria. (Antigos, não confundir com pornografia!) Li muita coisa boa. Também muita coisa dispensável. Posso até dar o exemplo em dois livros sobre pena de morte. Perdi horas lendo a autobiografia de Caryl Chessman (1921-1960) condenado à câmara de gás nos EUA, por assalto, sequestro e estupro. Ganhei horas de boa leitura com "Uma tragédia americana", romance escrito por Theodore Dreiser (1871-1945).

"An american tragedy" (1952) virou filme premiado e novela de enorme sucesso. "Selva de pedra", em sua 1ª versão, alcançou audiência recorde (100% no capítulo 152). Difícil reconhecer a tragédia americana na telenovela. O filme "Um lugar ao sol" ("A place in the sun"), vencedor do Oscar 1952,* é mais fiel a Dreiser.

Por falar em Oscar, pretendia escrever sobre a festa e os filmes premiados neste ano. Depois que observei pressões ideológicas sobre o evento, desisti. Neste ano nem Rubens Ewald Filho escapou do patrulhamento ideológico. Espinafraram-no por dizer que Frances Mc Normand estava embriagada (o que parece verdade) ao receber o Globo de Ouro e por deslize na menção à transsexual atriz do oscarizado filme chileno.

Livros são feitos para você pensar. Filmes podem ser escapistas. Simples lazer. Ajudam-nos esquecer a avalanche de más notícias que assolam e assombram este mundo.

Vou pouco ao cinema. Escolho bem o que irei ver na tela grande. Adorei o filme e a espetacular interpretação de Gary Oldman vivendo Churchill em "O destino de uma nação". Pretendo assistir "Três anúncios para um crime". A vencedora Mrs. Mc Normand tem trabalhos memoráveis como a esposa espancada em "Mississipi em chamas" e a policial grávida em "Fargo". Com certeza mereceu o prêmio... e a ressaca pelas biritas com que comemorou seu Globo de Ouro.

Deliciei-me com "A forma da água". Diverte. Até as músicas agradam. Acho incrível que o patrulhamento não aceite personagens "do bem" vencendo os "do mal". A história é água com açúcar. E daí? Ficaria melhor se fosse amarga, salgada ou apimentada? Alegoria não é para deixar ninguém pensando.

Por falar em empoderamento, o que não faltou na Festa do Oscar foram protestativas esticadas pelo botox e pelos cirurgiões plásticos. Também atrizes de todas as idades emponderadas em protesto justíssimo contra o assédio não consentido e o teste do sofá. Não é não. Ponto final.

Se meu caro leitor achou merecedoras do emponderamento quer na plateia, no palco, na recepção ou entrega das estatuetas, lembro que elas estão muito longe. Tente localizar outras espetaculares merecedoras perto de você. Você as achará na sua história pessoal. Por exemplo, aquela que te gerou, acompanhou sua formação, nutriu-o física, mental e espiritualmente, até com sacrifício da liberdade pessoal e social. Passou noites em claro cuidando de você. Também olhe para seu lado. A poderosa aliada, depois de enfrentar horas de árduo trabalho fora do lar na construção de um melhor futuro mútuo, ainda cuida de sua casa, de seus filhos e de você.

Na rotina da vida sem câmaras ou palcos você encontrará merecedoras do emponderamento. E do carinho. Que tal lhes enviar flores? Demonstre emponderada gratidão pela emponderada dedicação.

(*) - Melhor Filme (George Stevens), melhor ator (Montgomery Clift) e melhor atriz (Shelley Winters)

(**) - Autora Janete Clair. Atores Francisco Cuoco, Regina Duarte, Carlos Vereza.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com