ARTIGOS

Organicamente sustentável, publicamente incentivável


Leila dos Santos Machado

com João Felipe Peruchi e Roberta Superbia

Nos últimos anos, as informações sobre a vasta lista de benefícios atrelados ao consumo e produção dos alimentos orgânicos tem se difundido bastante. O cultivo deste tipo de alimento evita o uso de fertilizantes artificiais, pesticidas e outros produtos químicos. Desta forma, este sistema produz alimento saudável, mais saboroso, envolvendo ainda ações de preservação da biodiversidade e responsabilidade social, principalmente na valorização da mão-de-obra. Afinal, além dos benefícios envolvendo as questões ambientais (água, solo, vegetação, biodiversidade, etc.), que diferem a cultura orgânica da convencional, o sistema envolve também aspectos socioeconômicos. Os efeitos destes sistemas para as comunidades rurais podem ser muito positivos, uma vez que favorecem a geração de emprego e renda, devido aos cuidados específicos que o cultivo destes alimentos requer.

Embora o número de consumidores de alimentos orgânicos venha aumentando, há ainda um longo caminho a ser percorrido até que este tipo de alimento seja a principal escolha na maioria dos lares. Para que isso aconteça, ainda existem alguns obstáculos a serem superados, tais como o preço elevado, aparência dos produtos e ainda, a fraca política de incentivos ao produtor rural por parte das esferas governamentais.

Quanto aos preços altos, a falta de incentivos para os produtores é um dos principais efeitos negativos relacionados à produção e ao consumo, o que contribui para que os orgânicos sejam comercializados, em média, 10% a 40% mais caros que os convencionais. Esta diferença existe por conta da produção em escala reduzida e pelas especificidades que a cultura representa. Atrelada a esta característica, existe também toda a logística que é dificultada por tratar-se de produtos perecíveis que não podem ser armazenados por muito tempo. Com efeito, o processo de obtenção da certificação é bastante dificultoso e caro, obrigando o agricultor a repassar esses valores para a comercialização de suas mercadorias.

Não obstante, a relativa carência de informações relacionadas ao consumo e ao próprio cultivo destes produtos fomenta a difusão de conceitos equivocados a respeito da qualidade dos mesmos. Devido ao não uso de agrotóxicos esses alimentos podem apresentar características visuais diferentes em relação a brilho, tamanho e cor. Embora esses quesitos não determinem a qualidade de um alimento, muitas pessoas ainda os consideram como alimentos inferiores, devido à falta de conhecimento sobre o assunto.

Nestas circunstâncias, emerge a necessidade de elaboração de políticas públicas de incentivo aos agricultores, auxiliando de maneira prática e burocrática, estendendo-se à parcerias na implementação (nas fases de cultivo) e na logística da comercialização dos produtos. Para isso, é importante que as prefeituras reconheçam seus potenciais para o mercado de orgânicos e operem mais próximas a seus agricultores. Assim promovendo, direta e indiretamente, uma maior conscientização a respeito do cultivo e consumo destes alimentos.

No que tange ao desenvolvimento sustentável, este tipo de parceria é uma ferramenta essencial, já que preconiza a interação e envolvimento das esferas social, econômica e ecológica na produção de alimentos, com impactos ambientais mínimos, gerando emprego e renda.

Insistir na produção dos alimentos orgânicos baseada em uma parceria com órgãos governamentais, certamente envolve a superação de muitos desafios. Contudo, o simples fato de haver uma mobilização em busca desta meta, modifica a perspectiva da carência de informações sobre o assunto e traz o conhecimento para mais perto das pessoas. Isto, por si só, já pode ser considerado como um passo significativo em direção a um novo horizonte para a alimentação e, até mesmo, na busca pelo tão sonhado desenvolvimento sustentável.(com João Felipe Peruchi e Roberta Superbia).

Leila dos Santos Machado é aluna de doutorado em Ciências Ambientais e João Felipe Peruchi e Roberta Superbia são alunos de Engenharia Ambiental da Unesp-Sorocaba