ARTIGOS

Um produto em falta


No Carnaval, acredito, rola mais cerveja do que cachaça. Mas a malvada , a branquinha, a fogosa me parece mais brasileira, e, por isso, me chamou a atenção a legenda que li, dias atrás, no Estadão: "O Ranking da Cúpula da Cachaça chega à terceira edição". Não vou discutir se ranque é melhor que ranking, nem se classificar substitui muito bem ranquear. O fato é que a cachaça vive um grande momento, "mudou de lugar, saiu debaixo do balcão do bar e foi parar na prateleira, cheia de orgulho".

O foco da notícia era a apresentação das 50 melhores branquinhas do Brasil. Mas o que me prendeu a atenção foi ver como esse destilado é verdadeiramente nacional. Produzido em Pernambuco desde o tempo de colônia, hoje brota de alambiques espalhados pelos 26 Estados brasileiros e Brasília. Faz parte do patrimônio histórico cultural do País.

Eu sei que cachaça não é água, não, pois "cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão", mas a afirmação da presença desse produto em todo o território nacional me fez sonhar com um produto de outra origem, de importância muito superior, que favoreceria a nação inteira e, infelizmente, está em falta no mercado. Um produto indispensável de ordem política e democrática, que viria garantir a ordem e o desenvolvimento do País, em todos os seus quadrantes.

Neste momento, não há cidadão contente e tranquilo com a situação nacional. Controle da inflação não basta. Desemprego, violência, tráfico de drogas e, por cima de tudo, os três Poderes da República na berlinda, tudo nos preocupa. Como e quando poderemos resolver nossos problemas? Excluído o sonho de qualquer salvador da pátria, o encaminhamento da regeneração política e ética desta terra que já foi de Santa Cruz, está, em última instância, em nós mesmos, na população. O produto maior e melhor para a recuperação do País nasce na disposição popular, decidida e coerente, de encaminhar pelo voto as mudanças que se fazem urgentes.

Sei que muita gente descrê da eficácia dessa proposta. Alega-se que os anunciados e prováveis candidatos ao governo do Estado, ao parlamento e à Presidência da República não convencem, não inspiram esperança nem transpiram confiabilidade. Juntados numa foto eventual, formariam como uma colcha de retalhos feita de velhos remendos num tecido aparentemente novo.

Concordo com essa crítica, mas as eleições não são para esta semana. Há tempo e caminhos para a gente se informar, investigar, trocar conhecimentos e ir construindo a definição do próprio voto, em outubro.

É preciso pensar além do Carnaval. Curta estes dias cada um do seu jeito, pulando ou descansando, mas depois esqueça a fantasia e caia na verdade, volte-se ao Brasil real. Sim, somos um povo alegre e criativo, temos milhões de braços vigorosos para apanhar e transformar riquezas naturais em muito chão produtivo e em muitas matrizes de emprego. Mas o correto aproveitamento e a devida valorização desses mananciais de desenvolvimento dependem, em grande parte, de lideranças políticas cheias de sabedoria e livres de preconceitos partidários. Ponha-se, então, a arquitetar seus votos com o cuidado de um ourives a lapidar sua mais preciosa joia.

No pós-Carnaval, o Brasil seguirá esperando que acreditamos nele.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br