ARTIGOS

Não viveu em vão


Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Agora me espera o prêmio que é dado a quem viveu uma vida correta 
(2ª Carta a Timóteo 4:7-8)

Três dias antes do Dia das Mães (1923), na Fazenda Caldeira (Bairro do Buru, Indaiatuba, SP), o odor de terra molhada juntava-se aos odores próprios da fazenda. A chuva adiara a colheita do feijão. O ambiente era tranquilo. Sons apenas do curral, do galinheiro, dos pássaros nas árvores e das crianças brincando nos arredores da casa. Aproveitando o sono vespertino do filho mais novo, Helena costurava roupas para o sexto filho que nasceria dali a seis meses. O marido fora pescar com amigos no Rio Jundiaí.

De repente, montando mula suada em trote apressado, cavaleiro alto e magro aproximou-se da casa. Assim que entrou, grito e choro quebraram o silêncio da tarde. As crianças correram para dentro. Estendida no chão da sala, a mãe chorava convulsivamente. O rebenque produzia estalidos ao bater no cano da bota. Fossem maiores partiriam pra cima daquele homem que, interpretaram, agredira sua genitora. Cristiano, irmão mais velho do pai, usara o relho para apressar a andadura da alimária. Coubera a ele trazer a infausta notícia de que seu irmão, ao tentar atravessar o rio, fora arrastado pela correnteza.

Nascido aos 10 de novembro, o filho póstumo recebeu o nome do pai acrescido do qualificativo Júnior. Para a família, Joãozinho. Anos depois, vendida a fazenda, filhos adolescentes, Helena mudou-se para a capital em busca de emprego para os maiores e de estudo para o caçula. Na pequena casa alugada na Baixada do Glicério (região hoje degradada), a viúva cuidou da casa, da prole e da manutenção da fé cristã. Os filhos (marceneiro, escriturária, contabilista e pintor) juntaram seus salários aos parcos rendimentos da venda da propriedade rural para que Joãozinho escolhesse carreira a qual sentisse vocacionado. A pequena casa da rua Teixeira Leite virou referência a quem precisasse abrigo em São Paulo. Verdadeiro "lar coração de mãe" abrigou familiais que, em busca de emprego, fugiam do interior.

Faço o relato para que meus leitores entendam melhor a fala do Dr. João Henrique Steffen Júnior, 94 anos, quando recebeu a Medalha de Lucas Tributo ao Mérito Médico (21/X/2017). Sem consultar anotações, discursou*:

"Perseguem-me os versos de pura sensibilidade escritos por Emily Dickson: Se eu puder evitar que um coração se parta, a minha vida não terá sido em vão/ Amainar o sofrimento, aliviar a dor ou encaminhar um passarinho perdido de volta a seu ninho/ A minha vida não terá sido em vão.

Ah! Se a Divina Providência, em seu querer e poder, alongasse os dias ou os anos da minha vida, eu continuaria curar corações feridos, amainar sofrimentos e, se possível, encaminharia de volta ao lar, transviados e perdidos nos caminhos da vida! Minha vida não teria sido em vão e eu faria jus a esta homenagem.

Ah! Mas, se por artes da ciência com seus mistérios, ou por milagres inexplicáveis eu pudesse regredir por setenta anos, encontrar-me-ia na sala de jantar iluminada por uma lâmpada de 50 watts, naquela modesta casa habitada por família de parcos recursos financeiros. Nela, encontraria minha mãe, viúva, assentada à mesa e rodeada por cinco de seus filhos; após considerações da economia familiar, dando-me o encargo nos seguintes termos: Joãozinho, você vai estudar!

Ah! Neste dia eu depositaria no regaço dela esta medalha de São Lucas e lhe diria: "Mãe...combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé."

Lágrimas e palmas expressaram os sentimentos da plateia, em pé, no anfiteatro lotado.

Três meses após a homenagem, Joãozinho partiu para se juntar á sua mãe na linda cidade onde não existem lágrimas, onde repousam os justos.

Dr. João Henrique Steffen Júnior

10/11/1913 04/02/2018

(*) Nota do autor. Comenda outorgada pelo CRM-PR a profissionais médicos de reconhecida atuação em causas sociais e humanitárias. Para transcrever o discurso, basei-me em anotação feita por quem assistiu a cerimônia.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com
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