CULTURA

Vandalizada, Estação Ferroviária de Sorocaba é retrato do abandono


Interditado há cinco anos, o prédio da Estação Ferroviária de Sorocaba está se desfazendo pela ação do tempo, a falta de um restauro mais completo e ações de vandalismo. A reportagem foi até lá na quarta-feira (17) e constatou que o espaço está com o teto caindo, parte da parede sem reboco, tem lixo como garrafas plásticas, bitucas de cigarro, latinhas e isqueiro, e ainda está ocupado por usuários de drogas, que mantém pertences pessoais e até cama no local. Já a linha férrea está tomada pelo mato. A última grande reforma na estação foi há quase 30 anos.

Por medida de segurança, desde 2013 ninguém pode entrar no hall principal e nem subir as escadarias para ter acesso às salas. A única parte que dá pra ser usada são as salas situadas do lado esquerdo, onde ficam a Casa do Turista e o Barracão Cultural, e também o anexo ao lado direito, onde funciona o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs).

Apaixonado por ferrovia e estudioso do tema, Stênio de Andrade Gimenez, que é ferroviário e organizador do grupo Maquete Modular de Sorocaba (GMMS), formado por entusiastas da ferrovia, afirma que quem vê a fachada do prédio pela avenida Afonso Vergueiro tem a falsa impressão que está tudo bem, mas não faz ideia de como está do lado de dentro. "O prédio só permanece em pé porque as paredes são largas, mas todo o interior está destruído. Abandono total."

Para Stênio, há uma indiferença por parte do poder público em relação ao prédio. "Por permitir que o local abrigue gente desocupada. Na minha condição de ferroviário e amante da ferrovia, lamento ver essa degradação."


Alguns usuários de drogas estão morando no local - EMÍDIO MARQUES Alguns usuários de drogas estão morando no local - EMÍDIO MARQUES

Conforme Stênio, não há controle algum ali, "sobretudo por quem vem pela linha férrea". O espaço vem sendo cada vez mais ocupado por usuários de drogas e alguns estão morando ali. "A estação virou uma cracolândia e em menos de um ano a situação se tornou muito grave. Há um risco real de um dia pegar fogo no prédio inteiro", preocupa-se.

Como os usuários de drogas costumam acender fogo na estação, ele lembra que já teve um princípio de incêndio no local, há cerca de dois anos. Aliás, recentemente, no domingo passado (14), o ferroviário flagrou dois homens tentando furtar fios na Casa do Turista.

Stênio conta que está sempre pelo local porque ali é ponto de encontro dos amigos que curtem ferrovia. "Fala-se muito na nostalgia dos áureos tempos, mas a ferrovia como conhecemos mudou. Já passamos do tempo de ter um trem rápido, que transporte para a capital."

Na opinião do ferroviário, já que a estação foi desativada e não tem mais trens de passageiros, que pelo menos as autoridades consigam garantir que o prédio não caia. "E que sejam feitas ações para que a gente não lamente, lá na frente, que o prédio acabe sendo incendiado."


Apesar de pertencer à União, o prédio está sob tutela do município - EMÍDIO MARQUES Apesar de pertencer à União, o prédio está sob tutela do município - EMÍDIO MARQUES

Stênio acredita que o prédio poderia estar sendo útil à população, já que tem parte da madeira nobre preservada e parte dos vitrais. Ele cita Botucatu e Campinas como exemplos bem sucedidos de restauro e uso da estação.

No momento, enquanto a Prefeitura não restaura a estação de Sorocaba, ele sugere que ali tenha um posto da Guarda Civil Municipal (GCM), porque na sua opinião já inibiria o consumo de drogas no local.

Quanto a isso, a Prefeitura afirma que todo o perímetro que circunda a Estação Ferroviária tem vídeo-monitoramento, além de ter rondas da Guarda Civil Municipal (GCM). "A GCM faz rondas permanentes no local e sempre impossibilita a permanência de terceiros na Estação, inclusive fazendo a retirada dos mesmos", disse o órgão municipal.

No entanto, a estação tem dois pontos fixos de moradia. Uma fica embaixo da escada e outra lá no alto, na passarela. 


Quem vê a fachada do prédio pela avenida Afonso Vergueiro tem a falsa impressão que está tudo bem, mas não faz ideia de como está do lado de dentro - EMÍDIO MARQUES Quem vê a fachada do prédio pela avenida Afonso Vergueiro tem a falsa impressão que está tudo bem, mas não faz ideia de como está do lado de dentro - EMÍDIO MARQUES

Última grande reforma ocorreu há quase 30 anos 


A Estação Ferroviária de Sorocaba, marco da instalação da Estrada de Ferro Sorocabana, foi oficialmente inaugurada no dia 10 de julho de 1875, iniciando uma nova etapa na história econômica do município.

Considerado um dos principais patrimônios arquitetônicos de Sorocaba, o prédio foi tombado em 2003 pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico, Turístico e Paisagístico de Sorocaba (CMDP), mas ainda aguarda a restauração para poder voltar a ser utilizado pela população.

Apesar de pertencer à União, o prédio está sob tutela do município devido ao convênio que autoriza o Poder Executivo a utilizar e ocupar o complexo da Estação Ferroviária de Sorocaba, articulando ações de preservação e educativas que perpetuem a memória histórica e cultural. Dessa forma, desde a transferência, coube à municipalidade, entre outras funções, executar as obras indispensáveis à ocupação e conservação do imóvel.

A última grande reforma no prédio principal da Estação Ferroviária aconteceu em 1990, portanto há quase 30 anos, quando foram feitas intervenções na sua estrutura e fachada.
No final de 2012, a Prefeitura realizou a recuperação das instalações internas, como pintura, reposição de alguns madeiramentos do piso, reforço da escada de acesso, escoramento do piso, manutenção hidráulica e elétrica, arrumação do telhado e substituição de algumas telhas, retirada de alguns gessos do teto que haviam caído, além da troca de vidro das janelas. Reportagem publicada pelo jornal Cruzeiro do Sul naquele período informava que as obras, no entanto, se restringiram à manutenção do prédio, para evitar a sua deterioração, mesmo assim seria necessária uma intervenção maior para que o prédio voltasse a ser usado. Até então, o local ainda conseguia sediar a Cantada de Natal de Sorocaba, mas por questões de segurança, o uso daquele espaço para o evento foi interrompido e em 2013 já não teve.

Na época, a própria Secretaria da Cultura informou que o prédio estava precisando de reforma e restauração, e que o evento não poderia ser realizado ali por questão de segurança.

Conforme a Prefeitura, as últimas ações preventivas e de manutenção no prédio ocorreram no ano passado, quando foram realizadas a limpeza e lavagem do espaço e a retirada de entulhos, entre outros.

Já o mato alto na linha férrea e arredores, é de responsabilidade da concessionária Rumo. Questionada a respeito, a concessionária informou que realiza a roçada na faixa de domínio da ferrovia de acordo com cronograma estabelecido, no entanto não mencionou a periodicidade. A Rumo ainda disse que um novo cronograma para a região de Sorocaba está sendo programado e a limpeza deve começar em breve. 


Quem vê a fachada do prédio pela avenida Afonso Vergueiro tem a falsa impressão que está tudo bem, mas não faz ideia de como está do lado de dentro - EMÍDIO MARQUES Quem vê a fachada do prédio pela avenida Afonso Vergueiro tem a falsa impressão que está tudo bem, mas não faz ideia de como está do lado de dentro - EMÍDIO MARQUES

Projeto de restauro aguarda aprovação e não há prazo previsto 


A Prefeitura de Sorocaba informa que contratou uma empresa para elaborar projeto de restauro de todo o prédio e plataforma de embarque. Esse projeto está sendo finalizado e em análise para aprovação no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual. A Prefeitura ainda afirmou que pouco a pouco tem ocupado espaços que são seus, que não oneram os cofres públicos e estavam ociosos, a mercê de ações de terceiros. "A Estação Ferroviária é um desses, apenas não possuímos um prazo previsto para tal, já que ela demanda cuidados bastante específicos, como é o caso do restauro." 
 
 
*O Mais Cruzeiro iniciou em dezembro a série de reportagens "Espaços de memória", sobre os patrimônios históricos de Sorocaba. O material é publicado toda sexta-feira e tem como objetivo mostrar a situação dos imóveis e falar sobre suas atividades