EDITORIAL

Lições da história


A confirmação da morte de um macaco no Parque do Matão, em Votorantim, por febre amarela acendeu o sinal de alerta para a doença em toda a região e mobilizou autoridades da área da saúde para a vacinação de todos os moradores dos bairros que ficam ao redor do parque, muito próximo a Sorocaba. As campanhas de vacinação também prosseguem em Sorocaba em áreas próximas a regiões com matas, como Aparecidinha e Brigadeiro Tobias, inclusive com a participação de equipes volantes.

A preocupação com um novo surto de febre amarela já é uma preocupação nacional pois teme-se uma possível reurbanização da doença. Até sexta-feira da semana passada, o número de mortes por conta da doença subiu para 21, pelo menos sete delas em 2018. O Estado do Rio de Janeiro detectou dois novos casos, um deles com óbito e Minas Gerais confirmou nove mortes pela doença desde o fim do ano passado. Devido ao aumento de casos da doença, cerca de 20 milhões de pessoas deverão ser vacinadas a partir de fevereiro como forma de evitar a propagação do vírus para locais onde até agora não possuíam recomendação para vacinação.

Especialistas afirmam que o aumento de casos nesta época do ano já era esperado, pois com temperaturas mais altas e muita chuva, criam-se condições para a reprodução rápida dos mosquitos transmissores. Embora o contágio em áreas urbanas não aconteça desde 1942, há certo receio com pessoas dos grandes centros que passam férias em zonas rurais e possam contrair a doença. Para alguns estudiosos do assunto, entretanto, o aumento dos casos de febre amarela em vários Estados brasileiros e a ameaça de chegar a grandes centros eram previsíveis. Segundo o historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, entrevistado pela emissora Deutsche Welle Brasil, trata-se de um retrocesso e também uma tragédia anunciada. Segundo ele, na história das epidemias do século 21, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela, mas aqui no Brasil as lições da História não são levadas em conta, diz o especialista que também é editor da revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos. Ele lembra que na virada do século 19 para o século 20, as condições de saneamento nas principais cidades brasileiras era precário propiciando recorrentes epidemias de febre amarela, como aconteceu em Sorocaba. O presidente Rodrigues Alves, que assumiu em 1902 chamou o médico Oswaldo Cruz para assumir a diretoria-geral de Saúde Pública, com a missão de acabar com a febre amarela. Foi criado então o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela que colocou nas ruas brigadas de mata-mosquitos, com o objetivo de acabar com focos do Aedes aegypti a qualquer custo, causando inclusive revolta na população. Mas o esforço deu resultados e em 1907 a epidemia foi erradicada do Rio de Janeiro. E desde a década de 40 do século passado não se tem notícias sobre transmissão de febre amarela nos centros urbanos.

Segundo o historiador, entretanto, de lá para cá, predominou em todo o País uma atitude passiva diante do mosquito transmissor, o que explica as epidemias de dengue e zika que já varreram o Brasil. Ele lembra que as cidades cresceram e em muitas delas, as áreas mais pobres carecem de saneamento adequado, locais de grande proliferação do mosquito. Para o historiador, as medidas individuais de controle das larvas, presentes nas campanhas do governo, não são mais suficientes. Em regiões muito pobres como favelas de grandes centros, onde existem muitos reservatórios de água, até a criminalidade impede o trabalho de sanitaristas no controle de reservatórios e educação higiênica.

Ainda não se sabe o que propiciou o aumento tão grande de infectados pelo surto de febre amarela. A vacinação de populações que vivem em regiões próximas a matas, como vem ocorrendo, é essencial para conter a doença formando um cinturão de proteção para as cidades. Eliminar sempre os focos do Aedes aegypti, por outro lado, continua essencial para evitar uma tragédia ainda maior.