ARTIGOS

As idas e vindas das discussões sobre o aquecimento global


Sandro Donnini Mancini

Principalmente após a assinatura do Protocolo de Montreal, em 1986, as nações acharam que o mundo entrava numa nova era. Este acordo pôs uma data final (2010) à produção e comércio dos gases formados por Cloro-Flúor-Carbono (CFC), utilizados, por exemplo, como fluido de trabalho de geladeiras e propelentes de desodorantes. Estes gases eram considerados nocivos à camada de ozônio que protege o planeta da entrada de parte dos raios ultravioleta do sol. Pouco tempo depois, a produção destes gases caiu bastante, assim como seu comércio, dada a substituição por gases tão eficientes quanto os CFCs e menos nocivos ao ambiente.

A partir daí o mundo achou que era possível firmar novos acordos para melhorar a vida de todos. O novo alvo foi estabelecido: o aquecimento global.

Resultado da geração de calor a partir da interação entre a radiação emitida pela Terra (essencialmente radiação infravermelha) com gases presentes na atmosfera, o efeito estufa pode ser comparado a um carro fechado deixado ao sol. A luz passa pelo vidro, é transformada em calor e o calor não deixa o carro, esquentando o interior do veículo.

Assim, o planeta mantém uma temperatura média relativamente agradável, ou seja, o efeito estufa é natural e benéfico. O problema é que certos gases produzidos em ações humanas também interagem com a radiação, aumentando mais ainda a temperatura que levou milhões de anos para estabilizar-se. É como se esses gases fizessem o vidro do carro, exemplificado no parágrafo anterior, engrossar. O principal gás que tem essa propriedade é o dióxido de carbono, emitido inclusive enquanto respiramos. Como, pelo menos ainda, ninguém deu a idéia de que devemos parar de respirar para diminuir o aquecimento global, outra fonte de emissão de dióxido de carbono foi escolhida: a queima de combustíveis fósseis. Ou seja, se o mundo quiser manter a temperatura média como a natureza projetou, deve-se diminuir a utilização de derivados do petróleo, como a gasolina e o diesel dos automóveis e das indústrias.

Baseadas nessa nova estratégia e nas metas traçadas pela Conferência Mundial sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro em 1992 (a Eco 92), as nações deram um passo a frente em reunião realizada em 1997 na cidade de Quioto, no Japão. Para entrar em vigência o acordo deveria ser aprovado pelos poderes executivo e legislativo de pelo menos 55 países, cuja contribuição conjunta na emissão de dióxido de carbono para a poluição atmosférica somasse pelo menos 55% da emissão global deste gás. Apesar da indisposição dos Estados Unidos, responsáveis por cerca de 25% das emissões deste gás no mundo, adesões foram ocorrendo paulatinamente até que em fevereiro de 2005, o protocolo teve início. A ideia é que os países desenvolvidos tinham até 2012 para reduzir, em média, 5% das quantidades de dióxido de carbono que emitiam em 1990. Sem metas a cumprir nessa primeira fase do acordo, até 2012 o Brasil teve oportunidade, inclusive, de ganhar dinheiro com o efeito do aquecimento global, vendendo créditos de carbono.

É fato que, desde 2012 a 2018, os EUA, ator fundamental neste teatro, passaram de uma administração interessada em aderir aos esforços mundiais para controle deste tipo de poluição, para uma administração atual completamente desinteressada. Isso fez com que muitos achassem que acordos globais nesse sentido nunca iriam prevalecer, mas a maior parte dos países continua tentando seguir em frente.

Na última conferência mundial sobre o tema em novembro de 2017, em Bonn (Alemanha), puderam ser notados alguns avanços tímidos, mas mais do que isso, poucos retrocessos em relação ao Acordo de Paris, de 2015, época em que os EUA ainda estavam jogando oficialmente o jogo.

Sabe-se que isso é pouco, mas é melhor que nada. O duro é saber que nossa atmosfera não está nem aí para a nossa dificuldade de nos entendermos e está ficando cada vez pior.

Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp-Sorocaba - mancini@sorocaba.unesp.br