REFLEXÃO

Faça o que deve sob aplauso ou vaia


Geraldo Bonadio

Pessimista militante, o poeta Augusto dos Anjos alerta num de seus sonetos: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Neste ano que principia, assuma consigo mesmo o compromisso de fazer o que é certo, honesto e justo, sob aplausos ou vaias. Estas e aqueles passam; a consciência segue consigo, a exaltar seus acertos e denunciar os erros.

Reconhecimento ou rejeição, conforme a profissão, mudam da água para o vinho em intervalos muito curtos. O goleiro ou atacante que a torcida aclama domingo, pode deixar o campo sob vaias na partida do meio da semana. O atleta que vincula um desempenho galáctico ou medíocre às palmas ou apupos deixa de ser um jogador com altos e baixos -- como todos -- e vira a metamorfose ambulante cantada por Raul Seixas.

O seguidor de Jesus precisa estar vacinado contra a tentação de subordinar o agir assim ou assado a recebimento de apoio ou crítica. Quem leu, no Evangelho, os relatos da prisão, torturas, crucifixão e morte de Mestre sabe da volubilidade extrema de seus discípulos, após três anos de convívio diário. Eles viram-no receber o aplauso da multidão domingo, ao entrar em Jerusalém, e, a seguir, ser abandonado por todos -- inclusive eles.

Quando Pilatos perguntou à multidão se devia soltar Cristo ou Barrabás, faltou coragem aos apóstolos para formar um grupo que reclamasse a soltura de Jesus. Pedro, discípulo dos mais chegados, jurou não saber quem era Jesus.

Tem vontade de criticar a covardia dos discípulos? Pode fazê-lo com sinceridade? Em sua vida, dá testemunho do Cristo ou age como quem não o conhece? Sob pressão, fica com ele ou foge em disparada?

Este autoexame o perturba? Mude. Entre em sintonia com o crucificado e dará a ele uma alegria inimaginável.

"(...) haverá alegria no céu alegria por um pecador que se converte, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento."

Evangelho de Lucas 15:7 Almeida Contemporânea
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com