EDITORIAL

Memória ameaçada


Sorocaba tem uma história riquíssima. São mais de três séculos e meio marcados por vários ciclos econômicos e pioneirismos. A cidade também foi berço de personagens importantes da vida nacional. Mas nos últimos anos adquiriu o grave defeito de não dar valor a sua memória, ao seu passado. É o que se percebe ao analisar o jogo de empurra quando se buscam informações sobre o destino do acervo do Museu Histórico Sorocabano (MHS), que hoje ocupa uma série de salas do Palacete Scarpa, na região central da cidade, e que deverão ser desocupadas para, possivelmente, alojar repartições de alguma secretaria municipal. A prova do desmazelo com as coisas do passado está no próprio prédio que abriga esse acervo, um edifício inaugurado em 1922, de alto valor histórico e que há anos aguarda restauração.

O repórter Felipe Shikama, que vem publicando semanalmente desde 15 de dezembro uma série de reportagens sobre o patrimônio histórico de Sorocaba, quis ter acesso a esse material para realizar seu trabalho, o que foi negado pela Secretaria de Comunicação e Eventos, que alegou que o material estava sendo transferido de local. O destino do acervo é um galpão na vila Hortência. Já o titular da Secretaria de Cultura e Turismo, Werinton Kermes, a quem o museu está subordinado, informou que a mudança sequer começou e provou o fato enviando fotos do precioso acervo guardado no palacete. Segundo ele, o material realmente será transferido, mas será preciso contratar uma empresa especializada, o que ainda não ocorreu.

O fato é que uma valiosa reserva técnica do Museu Histórico Sorocabano (MHS), um material composto por mais de 1.800 peças do acervo, inclusive os registros de sepultamentos de cemitérios da cidade, irá para o mesmo local ocupado hoje pelo Arquivo Público e Histórico Municipal. Documentos e peças com valor histórico, para serem bem preservados, como se sabe, necessitam de instalações apropriadas e climatizadas, para evitar sua deterioração. Precisam também estar guardadas em local seguro para evitar roubos.

Sorocaba tem materiais de alto valor histórico espalhados por várias instituições. A exposição fotográfica "Sorocaba, onde o Brasil descobriu o interior", em cartaz no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs) até o dia 26, é uma prova de que um bom trabalho de pesquisa com material histórico da cidade resulta em trabalhos interessantes. Composta por 20 imagens do acervo municipal e 20 fotos contemporâneas de Valdemir Cunha, a mostra destaca a história da cidade de sua fundação até os dias atuais. As fotografias fazem parte de livro homônimo publicado com apoio de uma fábrica de refrigerantes que percebeu a importância da memória da cidade. Sorocaba teve a sorte de, ao longo de sua história, ser fotografada por profissionais importantes como Júlio Durski, Francisco Scardigno, Pedro Neves dos Santos e Rogick Vieira, entre outros. Recuperar o material produzido por esses fotógrafos, reuni-lo em um único local para visitação pública buscando patrocínio junto à iniciativa privada, a exemplo do que fez o autor da mostra em cartaz no Macs, seria um excelente caminho para a preservação de materiais preciosos.

Não podemos nos esquecer que há alguns anos toda a reserva técnica do Casarão de Brigadeiro Tobias, composta basicamente de peças do riquíssimo ciclo do Tropeirismo, foi furtada de algumas salas do antigo Matadouro Municipal, um local impróprio e sem segurança para manter esse tipo de acervo. Deixadas em local sem vigilância, as peças de valor inestimável foram furtadas e pouquíssimas foram recuperadas. E por falar em Matadouro, a restauração daquele prédio para transformá-lo em um centro cultural foi prometida por várias administrações municipais, mas nunca aconteceu. É outro exemplo típico da negligência que temos com nosso patrimônio histórico.