ARTIGOS

Meus pilares


Aldo Vannucchi

Às vezes, seja pela idade avançada, seja por alguma coisa que já fiz de bem, as pessoas me perguntam pelo meu segredo de estar assim, quase aos 90 anos. Como vai terminando mais um ano e nunca se sabe até onde se consegue chegar, achei oportuno procurar algumas pistas que insinuassem a minha autoexplicação.

Olhando para trás, pelo longo caminho da privilegiada formação recebida em família e no tirocínio escolar, posso distinguir alguns pilares básicos da minha história, que apresento aqui sintetizados por palavras de ordem, gravadas, desde a adolescência, na cabeça e no coração.

A primeira é "Age quod agis" (Faça o que está fazendo), princípio de vida atribuído a Inácio de Loyola e, por isso mesmo, palavras gravadas em muitas escolas de orientação jesuítica. Essa sentença latina me ensinou que devo ter sempre a cabeça focada no que estiver fazendo em cada momento. Concentração no trabalho que se tem em mãos dá bons resultados, em qualquer contexto.

Além do renomado santo espanhol, outra figura, quase oposta, me confirmou essa atitude. Falo de Benvenuto Cellini, um dos maiores artistas do Renascimento italiano, que esculpiu em bronze a famosa estátua do mitológico guerreiro Perseu erguendo a cabeça decepada da bruxa Medusa. Para levar a cabo esse feito excepcional que extasia milhões de turistas na Piazza della Signoria, centro magnético de Florença, ele deixou de fora todas as suas habituais aventuras e estripulias, e se concentrou obcecadamente na produção dessa obra. Para executá-la, exigiu uma casa à parte e se entregou, dias e dias, com foco total em seu Perseu. Só pensava naquilo e, por esse age quod agis, criou sua obra prima.

Outra diretriz latina de duas palavras aprendi já em anos juvenis: Vae soli! (Ai de quem está só!). Essa expressão veio do livro bíblico Eclesiastes (IV, 10) em que se lamenta a fraqueza da pessoa solitária, abandonada à própria sorte: "Ai daquele que está só! Se cai, não há outro a levantá-lo". Como se vê, é uma lição clara da importância do outro na vida da gente. Ele pode, muitas vezes, nos chatear, mas nos completa, corrige, encoraja e ensina, como também pode sempre aprender algo com a gente.

Mais tarde, leitor viciado de Machado de Assis, vim a descobrir uma crônica sua intitulada "Vae soli!", onde ele retrata uma viúva cansada de estar sozinha, e, por isso, em anúncio de jornal, pede casamento com um homem "que esteja como ela cansado de viver só". Mas, na realidade, a tal não queria relações de amor, queria apenas companhia. Ela confundiu, assim, duas situações bem diferentes. Uma coisa é isolamento; outra, solidão. Ai de quem se isola; feliz, quem sabe, casado ou solteiro, sozinho ou acompanado, curtir solidão interior, para refletir, orar e abrir espaços para mergulhos de autoconhecimento, pontes de relacionamento, projetos de transformações sociais e voos de criações artísticas.

Para que os dois citados pilares de minha vida age quod agis e vae soli não fossem meras palavras de ordem, devo dizer que eles se foram firmando, progresssivamente, no terreno sólido da minha fé, porque, em tudo e por tudo, Cristo é a minha rocha, Christus petra mea.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br