ARTIGOS

Belicosos demônios


José Milton Castan Jr.

Hoje pela manhã, finalmente, meus belicosos demônios se aquietaram.

Juro, não queria terminar o ano com eles assim tão... tão... apoquentados... tão perturbados. Perdoe-me pela intimidade sem apresentações, pois veja o senhor, veja a senhora, necessidades assim muitas vezes nos fazem perder o rigor das formalidades. Por ora não importa! Minha carência é falar sobre os motivos, e como consegui expulsá-los, os tais e quais demônios. Melhor dizendo, acalmá-los. Melhor ainda: um tranco os silenciaram.

Todos temos nossos momentos de desassossegos. Dias de desassossegos. Épocas de desassossegos. É o caso. A coisa vinha feia. Tudo começou quando ela me disse:

--- Vespasiano: Tô indo embora! sem as malditas formalidades!

Como doeu-me a alma. Nem tanto pelo "Vespasiano", qual ela nunca me chamou (deve essa, meu pai, Deus o tenha. Dizia ele ser nome de imperador romano), pois, da parte dela, sempre foi bem-quereres e um tal de "Vespinha" pra todo lado. Não fazia sentido "tô indo embora". Perda sem aviso. Pinchou duas malas casa afora, e se foi... pleno inverno.

Agora pensando melhor, meus belicosos demônios haviam despertados pouco antes de Maria Degui abandonar casa, cachorro e os charmosos "vespinhas", que soavam como "bespinhas" do sotaque castelhano do meu quase-amor portenho. Despertaram pouco antes do "tô indo embora", pois de alguma forma escutei mais cedo: "vá embora". Foi um "vá embora" garboso, com frívolas formalidades:

--- Vespasiano: lamentamos muito, mas a crise nos obriga a fazer cortes. Você foi ótimo colaborador. Por favor assine aqui. Tome lá seu aviso prévio.

Aviso prévio! Engraçado pensar que, de prévio o aviso tinha nada, e assim se foi meu quase-emprego. Não que gostasse do emprego, longe disso, nunca entendi direito uma fábrica de buracos pré-fabricados. E eu vendia buracos pré-fabricados. E pior, tinha gente que comprava buracos pré-fabricados!

Duas perdas, Maria Degui e meu emprego. Assim sem formalidades. Baita mundo informal, superficial, meio besta mesmo. Sem valores... e eu desvalorizado!

Então eles, os beligerantes demônios, mostraram toda sua fúria. O dito desassossego foi engrossando, tornou-se perturbação e daí vieram sandices quais nem ouso revelar, menos por vergonha: fui refém deles. Vítima e não réu, entendeu? Quase-amor, quase-emprego... quase-vida!

Pensei em me matar, tais eram minhas dores, posto que dores sentidas causam sofrimentos. E eu sofria. Não desejava realmente morrer, mas seria boa maneira de livrar-me das dores da alma, essas não se arrancam com os dedos, e nem tão pouco se remediam com remédios! Seria uma morte inusitada, onde todos, até Maria Degui sentiriam pena de mim. Isso mesmo, que tivessem apiedamento pelo que me causaram. Meu ex-chefe também. Engoliria um enorme caroço de manga. Ele entalado, eu sem fôlego despedindo-me melancolicamente deste mundo. Faltou-me coragem.

E o tempo foi-me arrastando. E os malditos belicosos demônios fazendo estragos. Passou inverno, primavera..., hoje pela manhã, quase passou igual também. No entanto tudo mudou. Eu estava na fila do ônibus. Terminal lotado gente para todo lado. Essa coisa da correria do fim de ano. O que fazia no terminal, além de esperar o ônibus? Pois é, nem eu sabia. E nem eu sabia que não sabia porque estava ali. Descobri depois do tranco. Tudo muito rápido. Um ônibus desgovernou-se e subiu a sarjeta vindo em minha direção. Um abanão, um vigoroso empurrão em minhas costas. Quase caí. Só não, porque dei dois ou três passos para frente e o ônibus passou zapeando minhas costas. Por um nada não me atingiu! E nisso eu estava no meio da ruela do terminal e o ônibus parado em cima da calçada. Ouvi gritos e choros. Não deu para saber quem havia me empurrado livrando-me de morte certa. Um empurrão jogou-me para frente. Não tive como não pensar que a perda de Maria Degui e do meu emprego foram os empurrões que faltavam para mudar e domar o rumo da vida. Levaram-me um passo à frente.

Sem haver de engolir caroços de manga, de quase-amores, quase-empregos e de quase-vida, estou agora sentado no jardim da praça. Uma calmaria especial. Se foram meus belicosos demônios. Que venha o ano novo!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br