EDITORIAL

Plantões no pronto-socorro


Por meio de documentos, médicos do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS) deram ciência de uma denúncia grave à diretoria técnica do hospital e ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Segundo eles, a falta de plantonistas de clínica médica no pronto-socorro do CHS leva a equipe de médicos a conviver com sobrecarga de serviços na tentativa "frustrante" de cobrir a escala de plantões.

Os profissionais lembraram ao Cremesp que o correto para o pronto-socorro seria a presença de pelo menos dois médicos plantonistas por turno em cada plantão. No entanto, em geral, mesmo com a realização de plantões extras, o que se tem é apenas um e, em alguns casos, nenhum plantonista.

Uma escala dos plantões de abril passado, encaminhada pelos médicos ao Cremesp, registrou a falta de "ao menos um plantonista nas quartas-feiras à tarde e quintas-feiras pela manhã". Nas quartas, das 13h às 19h, não havia nenhum plantonista, assim como nas quintas, das 7h às 13h.

Eis a justificativa dos médicos: "Buscando preservar a equipe médica e a integridade dos pacientes que procuram ou são encaminhados para o nosso serviço é que realizamos a denúncia de tal situação". Cinco meses após ter recebido a denúncia, em agosto, o Cremesp arquivou a sindicância aberta argumentando que não foi constatada infração ética cometida por médicos. E o Cruzeiro do Sul apurou que o número de plantonistas continua o mesmo desde então.

Em outra frente de ação, os médicos também alertaram a diretoria técnica do CHS sobre o problema em documento enviado em 14 de março. Pediam medidas para evitar "a exposição dos médicos e dos pacientes a situações críticas e de risco" e que não se permitisse "o funcionamento do setor de clínica médica sem a presença de profissionais em número adequado".

Sem comentar essa situação, a diretora do CHS, Silvia Moreira, transferiu ao setor de imprensa do governo do Estado a atribuição de responder sobre a questão. A resposta aborda contratação de médicos e investimentos, mas não oferece qualquer resposta ao problema específico da falta de médicos nos plantões do pronto-socorro do CHS. Antes de tudo, a situação é de alto risco para médicos e pacientes e precisa ser esclarecida e resolvida com urgência. Destaque-se, em primeiro lugar, a coragem dos médicos em levar a denúncia às instâncias competentes. Sem a iniciativa desses profissionais, provavelmente o problema não viria a público.

Destaque-se, também, a decepção com a reação evasiva do Cremesp e a falta de providências por parte da diretoria técnica do CHS e, acima dela, da Secretaria da Saúde do Estado. O hospital é referência no atendimento de saúde para 48 municípios para casos de alta complexidade, que incluem vítimas de acidentes, de problemas cardíacos e neurológicos, entre outras. O pronto-socorro é o setor mais importante do hospital, por ser o local de primeiro atendimento. É onde se ganha ou se perde o paciente. E as escalas de plantões dos médicos fazem a diferença nessa luta pela vida das pessoas que chegam ali.

O Cremesp até poderia afirmar que não foi constatada falha profissional ou ética. Mas não foi esse o foco da questão levantada pelos médicos. A entidade, como instância que também tem a atribuição de defesa dos serviços médicos, ao menos poderia ter se posicionado em defesa das condições de trabalho da categoria. Era o mínimo que se podia esperar.

Destaque-se, por último, o contraste entre o cuidado dos médicos com as condições de atendimento no pronto-socorro e a total falta de correspondência por parte das esferas competentes como o Cremesp, a Secretaria de Estado da Saúde e a direção do CHS. Lamentável.
Também é oportuno lembrar que essas instâncias têm responsabilidade pela solução dos problemas citados pelos médicos. O que a sociedade (que tanto precisa do hospital) espera é que tudo isso seja esclarecido com a máxima urgência, e que o apelo dos médicos plantonistas não continue a ecoar no vazio, sem resultar em qualquer melhoria palpável em seu importante setor.