ARTIGOS

O bunker de Temer derreteu


Até a tarde fatídica em que o país soube do grampo do Jaburu, o limite de 2017 parecia plausível. Depois do grampo, a prioridade do bunker passou a ser apenas salvação do mandato de Temer
 
Elio Gaspari
 
Nenhum governo admite que pode perder uma votação no Congresso, mas, ainda assim, eles se diferenciam no grau de seriedade com que administram seus receios. Desde o início da tramitação da reforma da Previdência, o bunker do palácio do Planalto, sob a regência de Temer com os ministros Moreira Franco, na flauta, Eliseu Padilha, no clarinete, e Henrique Meirelles, na tesouraria, seguiu em duas linhas. Primeiro dizia que o projeto, cheio de bodes, era intocável. Patranha, mas vá lá. Depois, inventou prazos. Até a tarde fatídica em que o país soube do grampo do Jaburu, o limite de 2017 parecia plausível. Depois do grampo, a prioridade do bunker passou a ser apenas salvação do mandato de Temer.
 
Tudo acabou num episódio de pastelão, com o senador Romero Jucá dizendo que a votação estava adiada para o próximo ano, sendo imediatamente desmentido por uma nota do Planalto. No dia seguinte veio o reconhecimento de que o jogo está adiado para fevereiro.
 
Nesse clima de barata-voa, chegou-se até ao ardil de pedir ao empresariado que pressionasse os parlamentares. Temer, Moreira, Padilha e Meirelles sabem perfeitamente que, a esta altura, se um empresário ligar para seu deputado levará uma facada em nome da campanha do ano que vem.
 
A capacidade de mentir do Planalto é infinita, mas ela deve ser calibrada pelo risco de se perder crédito até mesmo quando se diz a verdade. O bunker violou essa norma. Se num dia ele diz que Jucá está errado e, no outro, informa que a saúde do presidente vai bem, obrigado, no que se pode acreditar?
 
A presepada pode alegrar a maioria dos brasileiros que não confia no governo, mas ela embute um perigo. O derretimento do bunker pela aritmética da falta de votos e pela má qualidade de suas lorotas, arrisca expandir-se. A contaminação de um governo fraco e impopular num ano de sucessão presidencial radicalizada adiciona à confusão uma instabilidade perigosa e desnecessária.
 
Outro Lula
 
De quem conhece Lula há mais de 30 anos: "Ele se tornou outra pessoa. Está ressentido e vingativo. Está, mas nunca se deve esquecer que ele se orgulha de ser uma metamorfose ambulante."
 
STF x TCU
 
Como diria o ministro Gilmar Mendes, o Supremo Tribunal Federal tem um encontro marcado com o Tribunal de Contas da União para demarcar suas atribuições.
 
"Pretinho" federal
 
Desde abril passado, quando o doutor Sérgio Côrtes, ex-secretário de Saúde do Rio de Janeiro, entregou-se à Polícia Federal vestindo uma camisa de malha preta parecida com os uniformes dos agentes, surgiu um estilo de moda.
 
É o "pretinho" da Federal. Aderiram a ela o deputado Jorge Picciani e, numa ocasião, o empresário Jacob Barata.
 
Eremildo, o idiota
 
Eremildo é um idiota e sempre votou em Sérgio Cabral, pois achava que o Rio precisava de um gestor modernizante.
 
No seu último depoimento ao juiz Marcelo Bretas, o magnífico Cabral disse que entesourou dinheiro pelo caixa dois, mas não menciona nomes, pois "isso implicaria em citar companheiros meus, de lutas políticas".
 
O cretino diz que nunca recebeu um tostão pelo que fez pelo ex-governador Cabral. Se ele quiser, pode citá-lo, desde que deposite algum em sua conta. Serve até terno usado do Ermenegildo Zegna.
 
Elio Gaspari é jornalista da Agência O Globo e escreve nesta página às quartas-feiras e domingos.