ARTIGOS

Coração leve


A arte de bem viver exige o uso equilibrado dos bens materiais e o cultivo do espírito, para se evitar neuroses e não perder a paz interior
 
Aldo Vannucchi
 
Últimos dias de 2017, o bombardeio de mil tentações consumistas, a cidade atravancada de carros, os sonhos das próximas férias, os preparativos para Natal e fim de ano, tudo no meio de um noticiário pesado de corrupção, mais as tricas e futricas de uma pré-campanha eleitoral, qual a receita para a gente não se sufocar, com todo esse peso nas costas?
 
Se cada um sabe onde lhe aperta o calçado, por que não saberá se sobrepor a esse vagalhão que lhe transtorna a vida, o seu tesouro maior? Penso que, com um pouco de reflexão, a gente encontra uma boa resposta, batendo à porta do coração. A solução está aí: manter o coração leve.
 
Coração leve é coração aberto ao que é nobre e prioritário, coração que bate ao ritmo do que nos faz plenamente humanos, nem animais nem anjos. Coração seguro de si mesmo, que não se perde por distrações, porque distração é, literalmente, tração para os lados, desvio para o desimportante, com perda de atenção ao essencial.
 
O essencial se encontra dentro da gente, no autoconhecimento e na autoconstrução de nós mesmos, para transformar o dom da própria vida em vida também para os outros. Um só ato de inteligência criativa, um só gesto de amor gratuito valem muito mais que estrondosas exibições de poder político, econômico ou social. Ao contrário do que muitos pensam, o cuidado com o mundo interior não nos isola da realidade, tanto que esse mundo interior pode ser cultivado em casa como no emprego, seja rezando ou cozinhando, no silêncio de um quarto como no burburinho da rua.
 
A rua, aliás, pode também convidar a gente a essa interioridade. A beleza de uma árvore, alguém que passa com bebê ao colo, um rapaz orientando um velho a atravessar a avenida, o casal idoso de mãos dadas, crianças brincando na calçada, o carteiro a trabalhar ao sol e à chuva, muita coisa bonita como essas podem despertar a gente para valores espirituais.
 
Nesse sentido, me dá um pouco de pena saber que há pessoas incomodadas com manifestações públicas de religiosidade, como as Marchas para Jesus, as romarias da Aparecidinha, o crucifixo em órgãos públicos. Você pode não ser religioso ou ateu, mas não tolerar essas mensagens, porque de cunho cristão, me parece fechar-se para qualquer arejamento interior. A verdade é que todos, uns mais outros menos, todos temos vida espiritual, porque não existe quem seja só corpo, só matéria, só carne.
 
Filósofos, psicólogos, neurocientistas e sábios de todos os tempos estão sempre a nos lembrar que a arte de bem viver exige o uso equilibrado dos bens materiais e o cultivo do espírito, para se evitar neuroses e não perder a paz interior, no turbilhão da existência.
 
Em qualquer ambiente, é fácil perceber pessoas que inspiram espiritualidade. Quer conhecê-las? É gente comum, que, nos altos e baixos da vida, sabe manter aquele jeito tranquilo que os antigos chamavam de jovialidade, supondo-a influenciada pelo planeta Júpiter (Jovis, em latim), símbolo da felicidade. É o que se diz hoje, pessoa de bem com a vida, pessoa consciente de que a vida é o bem maior, um presente de Deus.
 
Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br