ARTIGOS

Porque hoje é sábado


Amanhã, domingo, é dia de louvor e descanso. Que tal uma chegada na comunidade onde você expressa (ou expressava) sua fé?
 
Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a
 
luz era boa; fez separação entre a luz e as trevas.
 
(Gênesis 1:3 e 4)
 
Edgard Steffen
 
Porque hoje é sexta-feira procuro assunto para a coluna. Lembrei-me de Vinícius de Moraes. Na TV a cabo, assisti ao filme dirigido por Miguel Faria Jr. (2005) sobre sua vida. Não me acrescentou muito. A biografia escrita por José Castelo ("Vinícius de Moraes: o Poeta da Paixão uma biografia") e o "Chega de Saudade", de Ruy Castro, relataram o que havia de mais importante na vida do autodenominado poetinha.
 
Adolescente, numa coletânea de poesias brasileiras, levei um susto com o "Soneto da Intimidade" (1937). Num cenário bucólico, o personagem chupava amoras em torno de um curral, "ali respirando o cheiro bom do estrume" e concluía: "Nós todos, animais, sem comoção nenhuma / Mijamos em comum numa festa de espuma". Já conhecia poetas esquisitos. Augusto dos Anjos e Baudelaire, por exemplos, falavam em vermes roedores, carniça, podridão. Mas, pela vez primeira, li poesia séria mencionar exoneração da bexiga e usar termo chulo para descrevê-la.
 
Vinícius de Moraes estudou no Colégio Santo Inácio (Botafogo). Deve ter recebido instrução religiosa. Levado pelo intelectual católico Tristão de Athayde, publicou o poema bíblico "A Transfiguração da Montanha""na revista "A Ordem". Foi sua estreia gráfica.
 
Muitos anos, uísques e mulheres depois, trocou o banco da igreja pelas mesas dos bares boêmios. Deu voz erudita à música de seus parceiros. Versejaria com menos barquinhos, banquinhos e outras zinhas amenidades, mas continuou intimista cantando seus amores eternos de imprevisível duração.
 
Fui ao show de Vinícius com o Quarteto em Cy no Ginásio de Esportes. A memória me trai. Seu parceiro (Tom Jobim? Toquinho?) também participava. O poeta, com pouca qualidade de voz, porém afinado, cantava como se divertisse com amigos numa mesa de bar. Já não usava gravata ou paletó dos tempos do Itamarati. Cantava sentado. Camisa de cor viva, fora da calça. O copázio de uísque, com certeza, era o silêncio mais eloquente naquele espetáculo.
 
Interessante contraste entre o jovem conservador e o adulto superstar cujos versos para a Bossa Nova e MPB encantariam o Brasil e o mundo.
 
O poema "Desespero da Piedade" parece paródia da "Ladainha de Todos os Santos", que Vinícius deve ter desfiado na escola jesuítica. Começa:
 
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
 
E sonham no longo percurso com automóveis (...)
 
Tende muita piedade do mocinho franzino 3 cruzes, poeta
 
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina.(...)
 
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
 
Que o homem molesta. Que o homem não presta, não presta (...)
 
Termina:
 
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
 
Dos meninos velhos, dos homens humilhados, sede enfim
 
Piedoso com todos, que tudo merece piedade.
 
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim.
 
Em O Dia da Criação (1946), cita Gênesis 1:27 para criar uma alegoria. Na 2ª estrofe, responso e estribilho.
 
Neste momento há um casamento
 
Porque hoje é sábado.(à)
 
Há um divórcio e um violamento
 
Porque hoje é sábado (à)
 
Há uma mulher que apanha e cala
 
Porque hoje é sábado.
 
Na 3ª estrofe critica o Criador pela criação do homem.
 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
 
Na verdade, o homem não era necessário (...)
 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos.
 
 
Deixando Vinícius e concluindo. Porque hoje é sábado você está lendo este pedaço do Cruzeiro. Tomara que goste. Mas não se esqueça de que amanhã, domingo, é dia de louvor e descanso. Que tal uma chegada na comunidade onde você expressa (ou expressava) sua fé? Para o Senhor das Esferas, você homem ou mulher continua muito precioso.
 
Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com