CULTURA

Biblioteca Municipal comemora 40 anos


O exemplar do livro "Ciranda de pedra", de Lygia Fagundes Telles, dedicado e autografado pela própria autora, é um dos tesouros guardados em meio aos mais de 33 mil livros do acervo da Biblioteca Municipal de Sorocaba, que terá seus 40 anos comemorados neste domingo (10), com atividades recreativas e culturais gratuitas, a partir das 10h.

De acordo com a Secretaria de Cultura e Turismo (Secultur), hoje pela manhã haverá brincadeiras e pinturas faciais para as crianças. Às 14h, será realizada apresentação da Trupe de Circo e do Palhaço Fusquinha. O encerramento ocorre às 15h30, com apresentação de dança de rua e b-boys.

Durante a programação, haverá também a abertura de uma exposição fotográfica, com imagens do acervo da Prefeitura, de diferentes períodos da biblioteca, desde o primeiro endereço, na rua Comendador Oetterer, até a sede atual.

O evento comemorativo faz alusão à aprovação da lei 1.942, sancionada em 13 de dezembro de 1977 pelo então prefeito José Theodoro Mendes, que instituiu a Biblioteca Pública Municipal (o processo de instalação teve início em fevereiro do ano seguinte) e também os 14 anos de sua sede definitiva, no Alto da Boa Vista.

Apontado por sorocabanos e turistas como um dos prédios públicos mais bonitos da cidade, cuja arquitetura é inspirada nas curvas de um livro aberto, a Biblioteca Municipal Jorge Guilherme Senger mantém "Ciranda de pedra", de Lygia Fagundes Telles, na sessão de títulos considerados raros, ao lado de centenas de exemplares valiosos, como uma das primeiras edições de "Guerra de Canudos", de Euclides da Cunha, com dedicatória e anotações do próprio autor. O acervo também preserva cerca de 5 mil livros escritos por autores sorocabanos, disponíveis para empréstimo.

Funcionária da biblioteca há oito anos, Viviana Gomes dos Santos faz questão de destacar também o acervo de livros adaptados, para pessoas cegas e com baixa visão. São mais de 400 impressos em braile e outros 400 audiolivros, além de computadores com softwares de inclusão de deficientes. "Só é uma pena que é pouco visitado", comenta Viviana, que atribui a baixa procura das obras às dificuldades de acesso ao local. "Aqui é longe do Centro e até o ônibus para longe. Normalmente alguma pessoa vem buscar [o material] para o deficiente", assinala.

Atualmente, aliás, está em cartaz na Biblioteca Municipal uma exposição com materiais de sistema braile, como jogos adaptados, réguas, máquinas braile e reglete (instrumento para produção de escrita braile). Até o final deste mês, o saguão da biblioteca também sedia uma exposição com as obras finalistas do Prêmio Flávio Gagliardi de Artes Visuais de 2017.

De acordo com o titular da Secultur, Werinton Kermes, desde o início de sua gestão, em janeiro deste ano, houve aumento expressivo no número de exposições e atividades artísticas no espaço, a fim de atrair maior público e garantir que a biblioteca permaneça "viva". "O desafio é mudarmos o conceito de biblioteca, que não é só um lugar de arquivo e leitura de livros. Precisamos multiplicar as ações, para que tenha vida, que seja um espaço de vivência, de artes e de cultura", afirma, convidando ainda artistas e produtores a apresentarem propostas de "ocupação do espaço".

Também funcionária da "Jorge Guilherme Senger" há oito anos, a bibliotecária Flávia Tamborra reconhece que as estratégias para que o espaço permaneça convidativo à população, especialmente às novas gerações, frente ao advento da internet e o desinteresse pelo hábito da leitura, têm sido discutidas exaustivamente em todo o mundo.

Segundo Flávia, a biblioteca recebe uma média mensal de cerca de 3 mil visitantes e empresta aproximadamente 1.800 exemplares. "Também tem muita gente que vem diariamente para estudar para vestibular e concurso público, e até para fazer reunião de trabalho", detalha.

Da fundação aos dias de hoje

Aposentada desde 2006, Marisa Pelegrini Macambira foi a bibliotecária que ajudou a fundar a Biblioteca Municipal, organizando todo o acervo herdado da antiga Biblioteca Operária, na rua Comendador Oetterer.

Após alguns meses de trabalho, o espaço foi aberto ao público no mesmo local, até ser transferido em 1979 para o prédio localizado na Rua da Penha, onde atualmente funciona a Biblioteca Infantil. "No início a gente teve que criar e conquistar um público, porque como até então não tinha biblioteca pública, as pessoas não estavam acostumadas a frequentar", conta Marisa, citando que, aos poucos, com a realização de oficinas e saraus, o espaço passou a ser frequentado assiduamente pela população em geral, especialmente estudantes, intelectuais e artistas, como o dramaturgo Carlos Roberto Mantovani. "Havia um movimento muito grande de voluntários na área da cultura".

Marisa lembra que, uma das iniciativas culturais mais bem sucedidas realizadas na biblioteca foi o projeto Varal de Poesias, que durante todo o ano recebia inscrições de pessoas interessadas em expor sua produção literária. "Depois disso surgiu o Poesia em Debate, um grupo para discutir e produzir poesia, coordenado pelo Paulo Tortello, um dos grandes poetas da cidade", relembra.

Em 1994, o acervo foi desmembrado, dando origem à Biblioteca Circulante (para empréstimos), localizada no prédio da Pirâmide, da rua Nogueira Martins, e a Biblioteca para pesquisa, no Largo São Bento. Em 1996, "com o crescimento do acervo e do público", segundo Marisa, a Biblioteca foi transferida para antiga fábrica Nossa Senhora da Ponte até, finalmente, ganhar sua sede definitiva. "Para ser uma biblioteca viva, hoje e daqui 40 anos, é preciso se atualizar, acompanhar as tendências do que há de mais moderno no mundo", recomenda.