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Do céu ao mar da Noruega, todos os encantos - naturais e à mesa - do paraíso gelado dos vikings

Ex-terra dos conquistadores vikings, o país do melhor bacalhau e IDH do planeta esconde cenários gelados naturais de múltiplos encantos, como ilhas, fiordes e a espetacular dança de luzes da aurora boreal

POR MARCO MERGUIZZO

É em um improvável território com pouco mais de 385 mil m2, semelhante ao estado de Mato Grosso do Sul, ancorado às margens do mar da Noruega, bem na "esquina" da Escandinávia, nas franjas do Círculo Polar Ártico, que se escondem entre o céu, o oceano congelante e a neve que cobre esta parte do globo 365 dias do ano, verdadeiros tesouros da natureza. Céu, terra e mar, acima ou embaixo d'água, para onde quer que a vista aponte, os pés caminhem ou se navegue, seja durante o duríssimo inverno ou na aprazível e menos fria primavera, entre março e maio, quando as temperaturas se mantêm em torno de 16 e 5 graus negativos, que a ex-pátria dos conquistadores vikings e onde se pesca o melhor e mais famoso bacalhau do mundo, seduz e encanta a cada nova descoberta. 

Platitudes e rotinas, portanto, são coisas completamente fora de questão para quem planeja desfrutar de um destino de inverno cheio de charme, boa mesa e um menu completo e irresistível de atrações naturais e urbanas. A começar pelo surpreendente interior do país. Rumo ao seu litoral, partindo da bem-estruturada Tromso, maior cidade norueguesa acima do Círculo Polar Ártico, com seus pouco mais de 70 mil habitantes, é possível conhecer sem pressa cidadezinhas pitorescas e bucólicas cercadas de montanhas negras cingidas pelo branco da neve, e cuja costa é costurada por múltiplas ilhas e fiordes que abrigam lugares remotos e cenários gelados de grande plasticidade. 

Mas antes de seguir viagem, não pense duas vezes e planeje pelo menos três noites para uma aventura noturna ímpar e arrebatadora: uma "caçada" ou "sáfari astronômico", como os noruegueses a denominam. Embora os dias sejam solares e fulgurantes naquele ponto do país, é no completo breu desta parte do extremo norte do planeta, situado a "apenas" 2.220km do epicentro do Polo Norte, que se avista a espetacular dança ziguezagueante da aurora boreal (nordlys, em norueguês) – fenômeno ótico e meteorológico em que o céu é tomado por muitos feixes de luzes multicoloridos em movimento —, de longe a mais incrível e fascinante atração da terra do sol da meia noite.

Com olhos fixos para o alto, espírito de aventura, tempo e disposição para perder algumas horas de sono durante boa parte da noite e madrugada adentro, procure o serviço de guias turísticos que são tarimbados em rastrear o fenômeno, para algum ponto distante de Tromso e de sua iluminação feerica. A busca por um local ermo e afastado da luminosidade urbana é fundamental para melhor visualizar do fenômeno. Ou seja, quanto mais escuro o lugar, melhor. Outra dica é consultar de antemão o site Tromso Geophysical Observatory ou aplicativos de celular, como o NorwayLights, que indicam o nível de atividade e os melhores dias e horários para se observar o fenômeno, diminuindo assim o risco de o programa se tornar um grande fiasco. 

Evento ótico que só ocorre por lá e no outro lado do globo com a sua irmã do Sul – a aurora austral –, este espetáculo único se explica: ele é resultado de partículas do vento solar com a alta atmosfera terrestre. Quando chegam à Terra, essas partículas subatômicas são puxadas pelo campo magnético do planeta e se concentram sobre os dois polos. Em geral, a atividade se concentra nas altas camadas, onde predomina o oxigênio, conferindo-lhe a cor esverdeada, visível ao olho humano. Quando a descarga de correntes elétricas polares é mais forte, atinge as camadas mais baixas da atmosfera, onde há presença maior de nitrogênio, que resulta no vermelho escuro. Azul, violeta e laranja também são cores que podem surgir no horizonte negro por conta do fenômeno. Mas, detalhe, só podem ser captadas através de máquinas fotográficas dotadas de tripé para uma longa exposição.

Mas a experiência vale cada (longo) momento de espera e toda paciência do mundo. Anote: as luzes costumam ser visíveis de setembro até o fim de março. Ver a aurora depende tanto do nível de atividade solar quanto das condições meteorológicas. Um dia nublado, ou com neve, pode arruinar os planos.

TOUR PELA METRÓPOLE DO GELO


Já de dia, olhos e pés no chão, aproveite para visitar o Museu da Universidade de Tromso. Ali é possível mergulhar ainda mais sobre o fenômeno da aurora boreal e compreender como o povo norueguês interpretava no passado as luzes no céu ao longo dos tempos (como as inúmeras lendas dos espíritos de anciãos que poeticamente falam de uma "ponte para o mundo dos deuses, dos espíritos de crianças não nascidas ou de uma raposa resplandecente caçando no céu") até chegar a atual abordagem científica. Em seu acervo há também a réplica da caixa de Terrella, invenção do físico e explorador norueguês Kristian Birkeland (1867-1917), que simula o fenômeno celestial, além de animais empalhados que vivem mas montanhas geladas do Ártico, armas e objetos dos Sami – a etnia indígena de habitantes nômades que vive no norte da Escandinávia há milhares de anos e preserva até hoje sua língua e costumes próprios.

No tour urbano nesta "metrópole de gelo" norueguesa, também vale conhecer o aquário local - o Polaria -, uma espécie de Sea World de proporções minimalistas que dá direito a shows de animais marinhos, e cuja arquitetura intrigante lembra uma queda de dominós. E a Ishavskatedralen, a Catedral do Ártico. Construção de 1965, ela foi projetada para permitir a entrada de luz natural, de dia, e da aurora boreal, à noite. Um gigantesco órgão com 2.940 tubos que é entoado não só nas missas matutinas mas, também, em concertos da meia-noite vira atração, sobretudo quando a aurora boreal surge no céu e é embalada triunfante por sonatas gregorianas. Oportunidade inesquecível de pura magia reservada a uns poucos sortudos.


Cabeças de bacalhau secando ao vento na baía de Husoy, na ilha norueguesa de Senja - Blog 1gole1garfada1viagem Cabeças de bacalhau secando ao vento na baía de Husoy, na ilha norueguesa de Senja - Blog 1gole1garfada1viagem


PASSEIO DE RENA NA MONTANHA E BACALHAU AO VENTO

De volta à estrada, trilhando as cenográficas rodovias árticas que contornam os fiordes e montanhas negras cobertas de neve que emolduram esta parte da costa da Ilha de Senja, a segunda maior do país, e cuja tradição pesqueira inclui hoje uma enorme legião de turistas e praticantes de esportes na neve, é o lar de atrações geladas de tirar o fôlego. Caso do vertiginoso mirante Bergsbotn e da península Tungeneset, que separa os fiordes de Steinjord e Ersfjord, de onde é possível admirar a formação rochosa de Okshornan, conhecida como Djevelens Tanngard ("dentes do diabo", em português), graças ao contorno afiado de seus picos. E ainda, curiosamente, do maior troll do mundo, ser antropomórfico da mitologia nórdica com 18m de altura, segundo o Guiness Book, "pai" nada amedrontador do termo contemporâneo trolagem.

Mas ponto de parada obrigatório no caminho até lá é o Camp Tamok, acampamento do povo indígena Sami, em Oteren, a cerca de 1h30 de Tromso. Além de se divertir a bordo de trenós puxados por renas (reindeer sledding; confira, logo abaixo, o vídeo) ou, em caso de preferir adrenalina extra, a bordo de velozes snowmobiles - o passeio é uma oportunidade ímpar de se ter contato com membros dessa tribo de índios nômades e como eles preservam o seu modo de vida até os dias de hoje. Nesta rápida e curiosa imersão na cultura indígena também é possível provar um pouco da culinária durante o almoço servido numa cabana típica, dar um rolê em trenós puxados por cachorros (dog sledding), fazer caminhadas na neve ou ainda aproveitar para aquecer o corpo em uma revigorante sauna disponível aos visitantes. 




 
Seja qual for o programa, a tranquila Senja é o lugar perfeito para se desfrutar da placidez bucólica e de toda a hospitalidade do interior da Noruega. Sem contar os espetaculares pescados capturados nas águas de seu litoral. Além do salmão e de outras espécies, o bacalhau é um capítulo especialíssimo na história da região e do país. Nas inúmeras indústrias da região, o turista pode acompanhar desde a chegada do Gadus morhua, recém-pescado nas águas turbulentas e geladas, até os cortes, sua salga e preparação final para a comercialização e exportação para todo o planeta. E detalhe crucial para quem visita uma fábrica de processamento local: nada deste peixe nobre é desperdiçado.

As cabeças de bacalhau – sim, elas existem e são milhares! - podem ser avistadas logo na chegada ao vilarejo de pescadores na ilha de Husoy, penduradas em varais de madeira secando ao vento. Sem valor comercial, viram ração animal em países da África (os noruegueses costumam perpetrar caldos vigorosos e confortáveis ao paladar). Já as ovas vão para os mercados escandinavos, onde são badalhau apreciadas. A língua do pescado, por sua vez, é considerada por lá como uma iguaria culinária e ultravalorizada por gourmets de todas as partes. Retirada em um processo manual de corte, tarefa destinada exclusivamente a jovens noruegueses da comunidade de Husoy, e feita com extrema perícia e rapidez, ela é apreciada tanto na própria Noruega quanto em diversos países da Europa, sobretudo Portugal., e raramente chega ao Brasil, infelizmente. Já o corpo alongado - o "filet mignon" do bacalhau - que conhecemos, segue para o tradicional método de salga que permite sua exportação para várias partes do mundo.

Não por acaso, o Conselho Nacional da Pesca estampa em seu pescado mais cobiçado o selo de qualidade Norge (Noruega, no idioma local) para certificar sua origem e exclusividade. Chamado de "ouro branco" por seus compatriotas, o legítimo bacalhau norueguês tem na sua pesca a segunda maior atividade econômica e fonte de receita do PIB do país, depois do petróleo. Grande parte dessa produção vai parar afortunadamente na mesa do brasileiro. Das mais de 99 toneladas exportadas em 2015 para o mundo, quase 1/5 coube ao Brasil - o maior mercado do bacalhau norueguês -, em uma parceria iniciada nos longínquos anos de 1842, quando o primeiro veleiro nórdico chegou ao Rio de Janeiro com cargas do peixe e retornou com café brasileira, principal troca comercial que permanece até hoje.

CULTURA E MODERNIDADE NA CAPITAL OSLO

Na moderna e movimentada capital norueguesa, Oslo, também não faltam programas para aquecer ainda mais a viagem ao país que ostenta o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, de acordo com a ONU, e o título de "o país mais próspero do planeta", segundo o jornal britânico The Independent. No Fram Museum, museu dedicado à exploração naval nos polos do planeta e que em 2017 completou 81 anos, é possível voltar literalmente ao passado em que os dois grandes navios vikings, além do Fram e o Gjoa, as estrelas do acervo, que também rende homenagens aos exploradores Fridtjof Nansen e Roald Amundsen, heróis nacionais. Em tempo: o Fram entrou para a história mundial ao ser o primeiro a navegar nos dois polos Polo Norte na expedição de 1911 liderada por Amundsen. Para preservar esta grande feito, o navio foi trazido até Oslo e em torno dele foi construído este museu, uma atração simplesmente imperdível para os amantes do mar e da história.
 
Também vale a visita – e muito – à Galeria Nacional que abriga a icônica obra "O grito", óleo em tela perturbadora do pintor impressionista Edvard Munch (1863-1944), autor profícuo de mais 20 mil obras, além de outros artistas noruegueses como Christian Krohg e PederBalke. Ou, perto dali, à prefeitura de Oslo local da entrega do prêmio Nobel da Paz, e já um pouco mais distante, esticar até o Mathallen, um mercado gastronômico no bairro moderninho de Grünerlokka, espécie de "Puerto Madero" norueguesa, que reúne restaurantes, bares e lojas gourmet. 

Não deixe de reservar, porém, uma manhã ou um finalzinho de tarde para caminhar sem pressa por entre as 212 esculturas da instalação ao ar livre do escultor Gustav Vigeland (1869-1943), no Vigelandsparken. Espécie de Central Park ou o Ibirapuera dos noruegueses que o frequentam durante o ano todo, este parque, com grandes alamedas arborizadas, as quais são cobertas e pintadas pelo branco da neve nos meses mais gelados, serve de contraponto e palco permanente para um conjunto impressionante de figuras humanas em granito e bronze deste discípulo de Rodin. Homens e mulheres, adultos e crianças – sempre nus - em poses das mais variadas: chorando, sorrindo, amando, odiando, vivendo e morrendo - enfim, a aurora e o crepúsculo da vida representados de modo tocante, realista e por vezes bizarro, pelo mais popular e célebre escultor norueguês.
 
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+ DICAS 

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Oslo: www.visitoslo.com
Tromso: www.visittromso.no
Senja: visitsenja.info
 
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