EDITORIAL

Vans e carros


No conjunto dos itens que compõem a mobilidade urbana, o transporte de passageiros é um dos serviços mais importantes. Quando esses passageiros são crianças, multiplicam-se as dimensões de cuidados e prioridades. A questão ganha outros contornos quando o transporte dos alunos de escolas públicas (estaduais e municipais) e particulares atinge o patamar de desrespeito a vagas de vans escolares e isso provoca reclamações.
 
O assunto foi tema de reportagem publicada na edição de anteontem do Cruzeiro do Sul, na página A7. A reportagem mostra que o estacionamento irregular de carros particulares em espaços com placas indicativas de uso exclusivo de vans escolares tem causado problemas em frente às escolas. E muitas vezes os motoristas acabam sendo multados por agentes de trânsito. Outras vezes há discussões entre motoristas de vans e de carros comuns.
 
De acordo com o presidente do Sindicato dos Condutores Escolares de Sorocaba e Região (Sinceser), Edvandro Marques da Silva, 80% de um universo de 180 escolas da cidade têm placas indicativas de espaço exclusivo para as vans. Um levantamento do sindicato mapeou 72 escolas que apresentam situação mais complicada.
 
Os conflitos pelo uso dos espaços exclusivos para as vans acontecem nos horários de entrada e saída dos alunos nas escolas. Os motoristas que estacionam nos espaços das vans são pais ou responsáveis que também levam os alunos às escolas. Os condutores de vans argumentam que o princípio da legislação de trânsito é a segurança, pois enquanto eles transportam até 20 crianças, os pais cuidam de uma ou no máximo duas.
 
Os pais ou responsáveis também reclamam e acham "injusta" a restrição ao uso dos espaços de estacionamento em frente às escolas. As placas de sinalização os obrigam a parar o carro em áreas mais distantes dos portões das escolas, e garantem que isso também traz dificuldade. "E se chove? É complicado", queixa-se a dona de casa Patrícia do Carmo, que na quinta-feira buscou seu filho de três anos no CEI-73 da Vila Formosa, zona norte de Sorocaba.
 
A Urbes -Trânsito e Transportes informa que a fiscalização é realizada por agentes de trânsito em suas atividades de rotina e ela será intensificada. Mas isso só não basta. Os relatos de condutores de vans, de um lado, e de pais ou responsáveis, de outro, deixam claro que o trânsito em frente às escolas constitui um dos gargalos de difícil solução no fluxo de veículos.
 
A hora de entrada e saída de alunos é uma das mais tensas. Veículos estacionam em fila dupla, nas esquinas, na contramão, no que se torna um flagrante desfile de irregularidades e disputas por espaços cada vez mais restritos. A fiscalização é uma medida básica, mas somente ela não é suficiente. Urge identificar os locais mais problemáticos e traçar roteiros de orientação ao trânsito com a presença de amarelinhos e guardas civis municipais.
 
Certamente os recursos humanos da administração pública não serão suficientes para manter uma rotina de presença dos agentes em todas as escolas com problemas. Mas pode-se imaginar roteiros de presença dos profissionais em dias alternativos, de modo a evitar que a aproximação de condutores de vans e pais ou responsáveis se transforme numa batalha campal por disputa de vagas.
 
As crianças, que merecem toda a atenção possível, certamente precisam de segurança no embarque e desembarque nas vans e nos carros comuns. Mas também querem clima de paz, tranquilidade e respeito mútuo entre os adultos envolvidos nessa questão.