ARTIGOS

Politicamente correto?


Aldo Vannucchi

Preencho este espaço toda semana, com muito gosto, mas sempre às escuras: quem lê? quantos leem? Sei que esse escuro não é só meu. Foi sempre assim, desde o século 5 antes de Cristo, tempo do cronista bíblico Esdras, talvez o primeiro da história. Mas, atualmente, a coisa no Brasil está feia: tudo o que você diz, ouve ou lê tem que ser "politicamente correto".

O País está polarizado à volta de alguns pontos, sobre os quais todo mundo palpita, sejam temas maiores, como redução da maioridade penal, descriminalização das drogas, direitos humanos, ensino superior pago, aborto, ou apenas propostas partidárias, como Bolsa Família e Escola sem Partido. A polarização atinge níveis de guerra quando o assunto gira sobre anti ou pró petismo. Aí a casa cai.

Politicamente correto deveria ser o que realiza o essencial da política, arte e ciência do bem comum. Na prática, será politicamente correto o que eu disser ou escrever, respeitado e respeitando, obviamente, a pessoa que me ouve ou lê. A desavença surge toda vez que se esquece o bem comum, por causa de dogmatismo ou preconceito pessoal. Nesse caso, só mesmo um diálogo esclarecedor poderia resolver. O problema é que a polarização não está nos deixando pensar e, consequentemente, dialogar. Todos somos contra a corrupção, todos contra as desigualdades sociais, todos insatisfeitos com a situação do País, mas corre solta pelas conversas e pelas redes sociais um discurso envenenado, azedo e até de ódio.

O que fazer para sair dessa guerrilha psicológica em que se vive pisando em ovos, para não ser abatido por comentaristas de esquerda e sermões de direita? Como ressuscitar nossa liberdade de pensamento, sem patrulhamentos ideológicos que intimidam e impõem o cabresto do pensamento único? Creio que a receita dos sábios pode ser resumida numa recomendação bem prática: informe-se, antes de falar sobre o que não conhece.

Para exemplificar, ponho-me, então, um ponto hoje muito presente na mídia, o chamado Estado Mínimo. Como não sou economista nem sociólogo, preciso aprender com quem sabe, para depois tomar partido, aceitando ou não a diminuição da influência do Estado em todas as esferas da sociedade. Muitos preconizam a mínima intervenção do Estado em todas as esferas da sociedade, principalmente na área econômica, favorecendo, assim, a liberdade individual e corporativa dos agentes econômicos, o tão falado mercado. Para tomar posição diante dessa tese, preciso conhecê-la melhor e preciso trocá-la em miúdos, na procura dos seus objetivos e consequências. E aí chego a situações concretas a serem analisadas, como as privatizações, o tamanho do funcionalismo público e o tratamento de áreas fundamentais, como a educação, a saúde e a segurança nacional. Pode-se aceitar um Estado que intervenha, minimamente, em tais esferas?

Por esse exemplo, fica muito claro que essa historinha de "politicamente correto" já cansou. É melhor invertê-la para corretamente político, ou seja, vamos seguir tudo o que for conforme ao conceito de política, sem nos escravizarmos a partidos e ideologias. Esse o caminho ideal para pensar, refletir e opinar.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - aldo.vannucchi@uniso.br



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