EDITORIAL

Não à intolerância


O mês de novembro, encerrado na última quinta-feira, não deixará saudades pelas notícias de intolerância racial que permearam todo o noticiário e as redes sociais, com demonstrações grosseiras de racismo. Primeiro foi o caso das diferentes interpretações dadas à palestra da atriz Taís Araújo no evento TEDX São Paulo, realizado em agosto. O caso só ganhou repercussão quando o vídeo da palestra foi divulgado na segunda quinzena de novembro. A atriz abordou o tema "Como criar crianças doces num país ácido" e levantou assuntos pertinentes como o racismo e misoginia. Na sua palestra, Taís Araújo também falou sobre a preocupação que tem para criar seus dois filhos. Ganhou destaque nos noticiários e nas redes sociais a frase: "No Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros."

A frase foi suficiente para que o mundo caísse sobre a cabeça da atriz carioca. Embora com centenas de defensores, muitos internautas, sob a falsa sensação de impunidade que os meios eletrônicos oferecem, desancaram a atriz, publicando fotos de sua família em áreas públicas, sendo acompanhada por serviçais negros e uniformizados, e comentários com tons racistas.

Outro caso de intolerância -- este ainda mais grotesco e inoportuno -- partiu de uma cidadã brasileira nascida em Vitória (ES), que hoje vive no Canadá, e se apresenta como "socialite". Essa cidadã gravou um vídeo no Instagram, onde profere ofensas racistas à filha adotiva negra de um casal de atores famosos, causando indignação nacional. Com palavras grosseiras, ela ofende a criança de quatro anos em um tom doentio, que causou revolta e uma competente ação na Justiça -- foi aberto um inquérito a pedido dos pais da criança na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática e ela será intimada a depor.

Em contraste com essa sequência de casos de intolerância racial, a página Educare do Cruzeiro do Sul trouxe, na edição de ontem, uma reportagem de Larissa Pessoa (Projeto pedagógico busca tornar naturais as diferenças desde a primeira infância, pág. B3, 1/12), que revela como as questões raciais precisam e devem ser tratadas. No caso enfocado pela reportagem, mostra como é possível tornar naturais as diferenças desde os primeiros anos de vida. O trabalho, coordenado pela pedagoga Daniela Andrade Lopes Sena Francisco, é realizado em uma escola de educação infantil do Jardim São Guilherme, o CEI-84, na zona norte de Sorocaba. Para mostrar de maneira lúdica a importância da cultura negra no aprendizado dos alunos, a pedagoga, com apoio da direção da escola, fundou a Brinquedoteca da Vovó Benguela, que tem livros, bonecas de pano brancas e negras e um grande mural onde as crianças podem expor seus trabalhos. A unidade escolar também promove encontros e rodas de conversas com os pais dos alunos, uma atividade essencial na opinião da professora, para que as crianças não tenham atitudes de discriminação racial. A pedagoga, que já trabalhou com alunos do ensino médio e fundamental, acredita que é papel da escola enfatizar a cultura negra por conta de seu forte papel histórico.

Se o mês de novembro foi marcado por incidentes de cunho racista, tivemos em contrapartida, uma série de eventos por conta da celebração do Dia da Consciência Negra, no dia 20 de novembro. Em Sorocaba, uma ação conjunta de várias secretarias municipais, tivemos o Mês de Consciência Negra, com uma série de apresentações musicais, números de dança, rodas de conversa, oficinas e palestras sobre o tema, todas atividades gratuitas e abertas aos interessados.

Iniciativas como a do CEI-84, aulas sobre a rica história africana e debates sobre o tema, como os realizados durante o Mês da Consciência Negra, servem de antídoto contra as manifestações de intolerância racial que eventualmente ocorrem no País e são ampliadas nas redes sociais. O caminho é esse.