ARTIGOS

"Wolfsburg" e a influência do acaso


Nildo Benedetti

Na última sexta-feira, 24 de novembro, o Cine Reflexão apresentou na Fundec o excelente "Phoenix", de Christian Petzold. Hoje será a vez de "Wolfsburg", filme de 2003 do mesmo diretor. "Phoenix" estimula -- como se viu na sessão da semana passada -- a discussão em torno de instigantes e importantes questões sobre o impacto social e psicológico do nazismo do século XX e neste século XXI. Já o emprego de recursos técnicos, que dão ao filme um clima sombrio e opressivo, está perfeitamente ajustado ao seu conteúdo psicossocial. No caso de "Wolfsburg", o filme vale pelo suspense criado pela trama, ainda que alguns aspectos sociais possam ser nele vislumbrados.

Quando começa "Wolfsburg", a cena mostra um automóvel vermelho dirigido por Philipp, um bem-sucedido vendedor de carros que trabalha na concessionária do irmão de sua namorada Katja. Ele está ao celular e ouvimos Katja reclamando da pouca atenção do namorado e dizendo que ele só tem interesse em si próprio. Ele decide voltar para casa. Seu celular cai no chão do carro, ele tenta apanhá-lo, atropela um menino que estava numa bicicleta e foge do local. Este fortuito e pequeno incidente, a queda de um celular no chão de um carro, transformará drasticamente a vida Philipp e a de outras pessoas; essa transformação faz pensar no papel que o acaso desempenha na existência humana, constatação que tem sido tema de muitos filmes, como "Match point", de Woody Allen, por exemplo.

Laura, a mãe solteira do menino atropelado, trabalha em um armazém onde faz pequenos furtos de mantimentos com a ajuda de uma amiga. Por isso é que, quando a polícia chega ao armazém, ela supõe que seja por causa dos furtos, mas é informada que o filho está hospitalizado. Na verdade, quase tudo o que sucede com Laura no armazém parece ter uma causa, mas a causa verdadeira é outra; esta condição se repetirá em várias outras situações envolvendo a moça ao longo do filme. Coisa similar acontece com Philipp. Por exemplo, chegando à sua casa, ele descobre que Katja está pronta para abandoná-lo, mas, ao vê-lo arrasado (pelo atropelamento) resolve ficar, pensando que o abatimento dele seja por causa da saída dela. Em várias passagens do filme, que têm a participação do irmão de Katja, ocorre algo parecido. Como consequência desses enganos de percepção e de influência do acaso, a vida das personagens é condicionada pela incerteza, por mais que tentem racionalizá-la. "Wolfsburg" é o filme da incerteza porque ela está presente em praticamente todos os momentos.

Laura utiliza mapas, faz observações metódicas na busca obstinada pelo atropelador do filho. Ela tem uma única pista dada pelo menino: de que o carro que o atropelou é um Ford vermelho.

Philipp tenta se aproximar de Laura, movido pela culpa. Ignorando que ele é o atropelador, ela procura afastar-se dele, mas vai gradualmente cedendo. No final do filme, Philipp e Laura estão na praia. Pela primeira vez, ela se aproxima fisicamente dele, como procurando aconchego. Ele está prestes a confessar o acidente.

Serviço

Cine Reflexão
"Wolfsburg", de Christian Petzold
Hoje, às 19h, na Fundec (rua Brigadeiro Tobias, 73, Centro)
Entrada gratuita



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