ARTIGOS

Redação: o terror do vestibulando

Denise Lemos Gomes
João Paulo Hergesel


No Brasil, as crianças começam a escrever textos completos, com coesão e coerência, muito tardiamente e com pouca regularidade. A educação brasileira tem um caráter padronizado, massificado; ensina-se a reproduzir muito, mas pouco se orienta a questionar, contrapor ou argumentar. Ao mesmo tempo, exige-se que o aluno escreva bem.

O estudante, ao se deparar com a necessidade da escrita, quer para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quer para o vestibular, sente-se aterrorizado. O peso da redação para ambas as avaliações é bem significativo, considerado o mais relevante para diversos cursos universitários, o que gera notoriamente uma maior apreensão nos candidatos.

Em 2016, segundo o Ministério da Educação (MEC), só 77 participantes conseguiram alcançar nota mil na redação. O número é menor do que o registrado no ano anterior, quando 104 atingiram a nota máxima. Em 2014, foram 250 redações com notas mil. Em outro extremo, 53 mil participantes ficaram com nota zero em 2015; em 2016, foram mais de 84 mil. Esse quadro retrata o declínio na produção escrita.

O MEC destaca ainda que as causas para a nota zero na edição do último ano foram um dos seis motivos: 1) fuga ao tema; 2) cópia de texto motivador; 3) texto insuficiente; 4) não atendimento ao tipo textual; 5) parte desconectada; ou 6) propostas que ferem os direitos humanos.

Recentemente, uma ação pública protocolada pelo movimento Escola Sem Partido, liderado por Miguel Nagib, procurador do Estado de São Paulo, sugere a retirada desse último critério mencionado. A justificativa apresentada é que, além de a Declaração Universal dos Direitos Humanos não ser tema cobrado aos discentes, tal quesito viola a liberdade de expressão, além de destinar a uma avaliação subjetiva.

De outro lado, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão governamental responsável pela elaboração das provas, insiste que o critério ajuda a evitar mensagens de ódio e qualquer tipo de preconceito ou intolerância. Profissionais da área de Educação também defendem que os direitos humanos estão acima de qualquer liberdade de expressão e que é necessário educar para a cidadania.

A maior dificuldade dos alunos, no entanto, diz respeito à proposição de soluções criativas e razoáveis para o problema tratado. Por exigir propostas de intervenção social, especialmente no parágrafo conclusório, é comum que os estudantes sugiram criações de leis e/ou campanhas de incentivo, aspectos vistos como clichês e, portanto, prejudiciais à originalidade do texto.

O distanciamento da escrita formal, uma das consequências oriundas da falta de leitura de livros de qualidade, agrava a dificuldade para se expressar adequadamente. O registro escrito, seleção linguística a certo interlocutor com determinada finalidade, é algo que deve ser aprimorado no dia a dia do adolescente.

Para desenvolver um repertório crítico, reflexivo e argumentativo o estudante precisa ter uma família que estimule as competências de leitura e escrita, além de manter contato com publicações de qualidade. Dessa forma, o jovem adquire domínio e compreensão para selecionar e organizar melhor as informações que vai obtendo, a fim de relacionar completamente fatos, teses e opiniões que embasem sua ideia.

Para se evitar o senso comum, há a necessidade de entender novas teorias, bem como temas da Sociologia e da Filosofia. Outra estratégia é assistir a documentários e inteirar-se do que se passa na atualidade. Vale destacar que a escrita se constrói gradativamente, e não apenas com treinos intensivos. Ela é para a vida, e não para um recorte instantâneo dela chamado vestibular.


Denise Lemos Gomes é doutora em Educação, supervisora de ensino do Estado de São Paulo, coordenadora do curso de Letras Português e Inglês, Letras Português e Espanhol e dos cursos de licenciatura da Uniso. E-mail: denise.gomes@prof.uniso.br.

João Paulo Lopes de Meira Hergesel é doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi, mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Uniso. Escritor voltado principalmente para a literatura infantojuvenil, contemplado com prêmios em diversos concursos.