ARTIGOS

O escudo das redes sociais e a intolerância


Fábio Cenci Marines

Atualmente, a utilização das redes sociais (como Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat, Linkedin) pode ser considerada uma febre entre todas as faixas etárias, estas que visam o reencontro de amigos, paqueras, encontros casuais, troca de experiências, e até contatos profissionais (muitas empresas angariam clientes por este veículo). Ocorre que a tela do computador, para alguns, significa, além da retirada de filtros morais e éticos, escudo que permite escrever o que bem entende (o que não ocorreria "olho no olho").

É comum campanhas em redes sociais de ordem ideológica, ou ainda de idéias que se tornam "verdades absolutas", restando a quem dela divergir e ousar externar posição contrária, a "crucificação virtual".

Exemplos temos às pencas: a repercussão de manifestação ocorrida em uma das paradas do orgulho LGBT realizada na capital de São Paulo, em que uma pessoa foi crucificada, constando da na cruz as palavras: "BASTA HOMOFOBIA LGBT". Ou ainda, a repercussão advinda da morte, tempos atrás, de um cantor sertanejo (Cristiano Araújo).

No primeiro exemplo, o embate daqueles que defendiam a manifestação LGBT e os que a criticavam foi muito além de um Palmeiras e Corinthians. A defesa de ambos os lados, em muitos casos, foi permeada por ofensas pessoais (deixando de lado as ideias), como se somente um dos lados tivesse razão. Já no segundo caso, os que desconheciam o cantor vítima do acidente eram qualificados como desinformado, alienados, sem prejuízo daqueles que desdenharam o infortúnio, entendendo que não se tratava de pessoa relevante à cultura brasileira, que foram, semelhante ao primeiro caso, ofendidas de forma severa.

Outro exemplo recente merece destaque, e diz respeito a forma com que algumas pessoas qualificaram nas redes sociais a ex-presidente da República que, independentemente de concordar ou não com forma com que ela governava o país na oportunidade, tem o direito de ter sua personalidade respeitada, inexistindo salvo conduto aos brasileiros descontentes, para qualificá-la com termos pejorativos, senão com palavras de baixo calão (novamente o debate de ideias foi colocado de lado).

Tem-se a impressão que a intolerância e a ausência de limites reina no ambiente virtual, visto que a opinião "postada" pelo usuário não pode ser debatida, questionada, contrariada, vez tratar-se de verdade absoluta, sob pena de quem assim o fizer, ser exemplarmente agredido (deixando de lado o debate de ideias).

Será que Jesus Cristo é, de forma unânime, tido como filho de Deus por todos àqueles que habitam a Terra? Vale dizer que 31% dos alemães não acreditam em Deus, entendimento este compartilhado por 28% de espanhóis, 26% de chineses, 36% de belgas e 39% de franceses (pesquisa realizada pela Ipsos, da Reuters News).

Por qual razão uma pessoa externa sua opinião em alguma rede social? Para ser somente elogiada? Quem discorda dela deve ser ofendida, pelo simples fato de divergir? Qual o conceito de certo e errado?

Pode-se dizer que existe uma "verdade" qualificada pela lei, esta que leva em conta valores subjetivos daquele povo que, desrespeitada, traz ao transgressor uma sanção. Mas é possível afirmar que tais "verdades" são absolutas e inquestionáveis?

Ao menos no nosso sentir não, pois mesmo elencada na lei, algumas pessoas tem no seu íntimo a certeza de que a norma está errada, e por isso podem desrespeitá-la (quantas pessoas dirigem seus veículos após o consumo de bebida alcoólica sob o argumento que a lei está errada?)

Sábio foi Monarco ao compor "Silenciar a Mangueira. Não", quando afirmou que "da discussão é que nasce a luz.", afinal, uma opinião é tão somente uma opinião, e nada além de uma opinião.

Fábio Cenci Marines é advogado, professor de direito processual civil e inscrito na OAB-Sorocaba



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