LETRA VIVA

Carta ao homem da moto


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Prezado homem da moto:

Sou antiquado, e por isso decidi conversar por meio desta carta. Espero que você e os seus estejam bem. Por aqui, tudo na santa paz. Melhor dizendo: quase tudo na santa paz. Infelizmente, você tem participação no que eu acabei de escrever.

Quero acreditar que você não faz o que faz de propósito. Às vezes essas coisas acontecem. A gente se sente feliz, pleno, e esquece que essa nossa alegria pode perturbar as pessoas do entorno. Você não faz de propósito, tudo bem. Eu entendo. E espero que você entenda que eu não escrevo esta carta para constranger a sua felicidade.

Moramos no centro da cidade, pertinho da Moreira César e da Eugênio Salerno. Como você bem sabe, são vias importantes da nossa cidade. Por elas passam diariamente milhares de carros, motos, ônibus e ambulâncias. E, aqui, eu preciso confessar: gosto dessa movimentação. Sempre fico angustiado no campo ou numa praia deserta. Isso não quer dizer que eu não goste de natureza, de mato, dessas coisas. Gosto, só que longe. Gosto, só que muito de vez em quando. Deus me livre morar nesses condomínios mais afastados da cidade! Respeito profundamente quem mora nesses lugares, é mais tontice minha, mas não consigo me imaginar morando num lugar em que o único barulho é o cantar de um grilo.

Mas há limites nesta vida. E a sabedoria é saber quais são eles, esses limites. Quando o sujeito decide morar numa região central, ele sabe que não ouvirá facilmente o canto da cotovia ou que não verá um tatu brincando em seu gramado. Na verdade, o sujeito que decide morar numa região central abriu mão do gramadinho. Coisas da vida. Pois bem, o sujeito que decide morar numa região central sabe que as ruas perto do seu apartamento ficarão congestionadas boa parte do dia. A cidade não pode parar. Ele, o nosso sujeito, pode dar, de vez em quando, umas bufadas quando a coisa está mais apertada no fim da tarde. Mas é uma bufada inofensiva. Ele jamais poderá alegar que levou gato por lebre. Mas não é por isso que ele, o nosso sujeito, deva sofrer além da conta. Ele abriu mão do gramadinho, ele não verá bichinhos no quintal, ele não dará longas caminhadas pelo bosque do condomínio fechado; enfim, ele abriu mão de muitas coisas, e ele não precisa ser castigado por isso. Foi opção dele, e essa opção deve ser respeitada. Ele não precisa de torturas complementares. Por incrível que possa parecer, o sujeito que decide morar numa região central trabalha e ganha seu dinheiro honestamente. Por incrível que possa aparecer, ele acorda cedo. Veja o nosso caso. A Patrícia e eu acordamos cedo. Não trabalhamos pouco. Montamos nosso apartamento com esmero. Gostamos de ficar nele. Parecemos dois caramujos nas horas vagas, e isso é bom. Nossa sintonia é quase perfeita. Só não é perfeita porque a Patrícia consegue dormir bem mais cedo do que eu. Acho que sei os porquês: consciência leve e ingestão moderada de café. Da parte dela, claro. Promessa para 2018: diminuir o café. Quanto à consciência leve, acho que não é um problema para mim. A minha não está pesada. Escrevi o que escrevi algumas linhas acima só para fazer graça mesmo. E só agora me dou conta da minha gafe. Você é um homem da velocidade e está sendo obrigado a ler uma carta repleta de voltas e de informações desnecessárias. Peço desculpas, mas vai assim mesmo. Daria um trabalhão escrever tudo de novo. Não sei se eu disse: sou meio preguiçoso. Fiquemos assim: eu durmo tarde, e a Patrícia dorme cedo. Ela dorme, e eu fico vendo televisão e lendo. Tento não ser barulhento. Você poderia dizer que eu poderia fazer essas coisas lá na sala, enquanto a Patrícia dorme o sono das justas. Sim, eu poderia. Mas tem graça deixar a Patrícia sozinha? Tem graça ler um livro sem ouvir a respiração dela? E, como eu disse, faço tudo quietinho. Tomo muito cuidado na hora de virar a página. Estou descrevendo algo que acontece perto da meia-noite. Estou descrevendo algo que acontece perto da meia-noite de uma terça-feira, por exemplo. Sou um artista do silêncio, mas o que acontece? Ora, o que acontece é o seu divertimento, caro homem da moto. O seu divertimento e o dos seus amiguinhos. Vocês resolvem tirar uma corridinha tarde da noite. Vocês pilotam motos potentes. O barulho é terrível. Pode ser maravilhoso para vocês, mas é terrível para nós. Eu perco a concentração na leitura, e a Patrícia acorda. Acho imperdoável.

Por favor, pare. Muito obrigado.