EDITORIAL

Convescote em Benfica


Qualquer brasileiro que tenha acesso a um mínimo de informação já percebeu que nos últimos anos a corrupção, especialmente aquela que envolve legisladores e ocupantes de cargos no Executivo em seus diversos níveis, se tornou uma verdadeira praga nacional. Todo noticiário, quer seja ele de rádio, TV, jornal ou internet, trata diariamente de denúncias e prisões de figurões envolvidos com o uso inadequado, por assim dizer, do dinheiro público. Mas o Estado do Rio de Janeiro se supera a cada dia. Ontem, os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho, ambos do PR, foram presos pela Polícia Federal em um desdobramento da Operação Chequinho, que já havia levado Garotinho para a cadeia por duas vezes (leia notícia na página B4). É a primeira vez que a ex-governadora é detida.

Os dois, que têm base eleitoral em Campos, no norte do Estado, mas que moram em um apartamento no Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, estão sendo investigados pelos crimes de corrupção, concussão, participação em organização criminosa e falsidade na prestação de contas eleitorais. O inquérito identificou que a emprega JBS, dos irmãos Batista, firmou um contrato fictício com uma empresa para justificar o repasse de quase R$ 3 milhões para a campanha derrotada de Garotinho ao governo do Rio, em 2014. O Ministério Público denunciou ao todo oito pessoas acusadas de arrecadação ilícita para as campanhas eleitorais de 2010, 2012, 2014 e 2016, envolvendo até sete empresas com contratos com a Prefeitura de Campos, onde Rosinha foi prefeita até o final do ano passado. Foi expedido também mandado de prisão contra o ex-ministro dos Transportes e presidente nacional do PR, Antônio Carlos Rodrigues.

Um dia antes, alvos da Operação Cadeia Velha, foram novamente presos o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani e os deputados estaduais Edson Albertassi e Paulo Melo, do PMDB fluminense. Na semana passada, a Alerj decidiu, em sessão tumultuada em que foi proibida a entrada do público nas suas galerias, soltar os três acusados que haviam sido presos dias antes, por ordem judicial. A decisão da Assembleia, sem base jurídica, foi anulada pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região e todos voltaram para a cadeia.

Um ano após a prisão do ex-governador Sérgio Cabral, já condenado há 72 anos e respondendo a mais 15 processos, a Operação Lava Jato fez um balanço que mostra a triste realidade em que se encontra aquele Estado, onde funcionava -- e talvez ainda funcione -- um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro já investigados no País. De acordo com a força-tarefa da Procuradoria da República, foram apresentadas até agora 25 denúncias à Justiça Federal, envolvendo 134 acusados. As investigações apontam para vários caciques da política fluminense, tendo destaque o ex-governador Cabral, com atuação dentro e fora do País, incluindo a denúncia de compra de votos para a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016. Além de Cabral, outros 30 denunciados já foram condenados. As penas somadas ultrapassam a 377 anos de prisão. De acordo com o Ministério Público Federal, os principais crimes cometidos pela organização criminosa foram corrupção passiva e ativa, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro, organização criminosa, lavagem de dinheiro, evasão de divisa, crime contra a ordem econômica, tráfico de influência, entre outros.

Com uma quantidade de escândalos dessa magnitude, o Rio de Janeiro se tornou o Estado símbolo da crise econômica, política e moral que acomete o Brasil. E sabe-se que há muito a investigar ainda e onde a Polícia Federal põe o dedo, descobre-se um novo escândalo.
O jornalista Fausto Macedo, do jornal O Estado de S. Paulo, que acompanha a Operação Lava Jato e seus desdobramentos desde o princípio, lembrou em sua coluna que se a burocracia facilitasse e Garotinho conseguisse chegar ao presídio de Benfica antes do meio-dia, compartilharia de um almoço memorável com um respeitável grupo formado por caciques da política fluminense, embora o cardápio fosse o trivial do sistema penitenciário.