ARTIGOS

Moradia para longevidade


* Flavio Amary
 
Realizamos, na semana passada, um fórum para discutir o impacto do aumento da longevidade no mercado imobiliário e as diversas formas de atender essa demanda crescente nos próximos anos, buscando conhecer vários modelos existentes em todo mundo e compará-los com nossas ações, tanto no setor público como no privado.
As inscrições esgotadas, rapidamente, mostraram que o interesse pelo tema, em nossa sociedade, é alto e ao mesmo tempo com poucas informações disponíveis, até mesmo porque o assunto é novo. A pirâmide etária no Brasil sempre foi com uma base maior, mostrando um maior número de crianças e jovens do que de adultos e idosos, hoje a composição etária já se alterou e estamos vivendo um período de bônus demográfico, com um maior número de pessoas na idade economicamente ativa.
Mas dentro de10 a 20 anos essa situação se inverterá e, portanto, temos que estar preparados também para os desdobramentos dessa mudança. Com o avanço da tecnologia também na medicina as crianças, que hoje nascem, deverão viver mais de 100 anos, e o número de idosos no mundo, que hoje é de aproximadamente 1 bilhão, deverá chegar em 2,3 bilhões até 2050. 
O Brasil, juntamente com a China, a Indonésia e a Índia, são os países que, mais rapidamente, estão crescendo nesta faixa etária. 
Vários empreendedores imobiliários, na busca característica do setor de antecipar tendências, têm desenvolvido projetos, em número ainda menor do que a demanda existente e crescente. 
No passado recente, as pessoas com mais de 60 anos eram consideradas idosas, hoje são várias as pessoas que com mais de 80 anos continuam ativas e produtivas, na busca pelo conhecimento e relacionamento.
Portanto, esses projetos são para atender esse grupo crescente de homens e mulheres que estão sadios e que possuem características próprias e eventualmente algumas adaptações em projetos residenciais e demandas específicas.
Foi com esse intuito que buscamos exemplos, nos Estados Unidos e Europa, de projetos para atender o que será, em breve, a maior demanda de todos os produtos e serviços e também no setor residencial em todo o mundo.
São adaptações arquitetônicas, urbanísticas e idéias inovadoras que vão além do setor privado e que fazem com que até programas habitacionais públicos também busquem atender esse mercado grisalho nacional.
O conceito do compartilhamento, muito utilizado pela geração dos millenials, também deve ser adaptado para essa faixa etária. O co-housing busca, exatamente, essa filosofia na qual cada pessoa ou família possui sua privacidade, em casa ou apartamento, mas compartilham praticamente todo o restante, como carros, escritórios de trabalho, compram produtos em forma de cooperativa, podem fazer refeições em conjunto, em áreas próprias para esse fim, no próprio empreendimento.
Com um sistema de autogestão, fazem com que esses moradores sejam reconhecidos pelo grupo e, claro, contribuem para a sociedade. Esses empreendimentos podem ser concebidos tanto em regiões centrais das cidades, quanto em áreas um pouco mais afastadas, cada qual com suas características e demandas específicas.
O importante é debatermos esse impacto na mudança positiva da expectativa de vida de nossa população buscando encontrar caminhos e soluções, em conjunto, para que a sociedade possa melhor conviver com esse novo formato da pirâmide etária invertida.   
 
* Flavio Amary é presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) e reitor da Universidade Secovi - famary@uol.com.br