ARTIGOS

O cururu e resistência à moda


Luiz Carlos Rodrigues

O Desafio de Cururu é um repente caipira reconhecido em Sorocaba, Piracicaba, Porto Feliz, Laranjal, Botucatu e em todo Médio Tietê, e foi um expoente em teatros, rádios, Festas do Divino, centros urbanos e áreas rurais.

São vários referenciais e autores que convergem e divergem da origem do nome dado. O importante é que o Desafio de Cururu existe e precisa ser incentivado e mostrado para as novas gerações.

Luiz Beltrão, na teoria da Folkcomunicação, cita Edison Carneiro, que escreveu que "a tradição caracteriza-se pela resistência à moda". E o cururu vem resistindo!

O rádio, que trouxe o Cururu para a mídia na década de 1930, antes disso era cantado nas Festas do Divino, não tem dado espaço para divulgar essa tradição. As emissoras atualmente têm uma programação voltada ao consumismo da indústria cultural, com músicas da moda, de célere desaparecimento, deixando as culturas locais de fora.

Cido Garoto, cantor e incentivador de cururu, é um dos poucos que têm usado as redes sociais para chamadas de eventos e postagens dos encontros que acontecem uma vez ao mês; no entanto, estas mídias contemporâneas não têm tido eco junto aos frequentadores, que têm idade entre 50 e 80 anos e têm dificuldades com as novas tecnologias.

Trabalho empírico realizado mostra que os meios digitais ainda são um mistério e de alto custo para essa comunidade. As respostas mostram que 51,4% tem TV com canais pagos em casa e 48,6% não tem. Praticamente metade não pode ver ou rever o cururu, que é gravado em vídeo e reproduzido na TV COM, canal 7, o único veículo de comunicação a divulgar esta arte verbal. Programas de rádio são quase uma unanimidade nas repostas para que eles possam ter representatividade na mídia tradicional local, por terem sinal gratuito e estarem disponíveis em casa, no carro ou no trabalho, porém não há nenhum programa voltado a esse público na cidade.

Com a falta de divulgação e incentivos do poder público, há pouca renovação de interessados em cantar o Desafio do Cururu, que poderá deixar de existir.

No livro "Prosa de Cantador", o escritor e cantor sorocabano Cido Garoto explicitou sobre o futuro do cururu: "por isso eu digo que, se num surgirem uns talentos aí, a coisa vai acabar né?".

Contra todos os ventos e tempestades, os cururueiros continuam fazendo mensalmente, sempre no último domingo de cada mês, apresentações no Clube Barcelona. A maioria deste grupo da terceira idade é feito de resistência e resiliência, para manter esta tradição frente à tentativa de globalização cultural.

Ao pesquisar em Sorocaba sobre as leis existentes sobre o cururu, que elevou o nome da cidade, alavancou nomes de políticos em campanhas eleitorais, atraiu grandes públicos em eventos e aumentou audiência de rádios, foram encontradas somente duas leis: uma de incentivo a não cobrança de impostos nos eventos de cururu e a outra de denominação de nome de rua para "Benedito Garutti", o Dito Garutti, cururueiro falecido em 2000.

Diante disso, o pesquisador e os cururueiros apresentaram à Câmara do município uma proposta para que seja criado o Dia do Cururu, no dia 19 de julho. Para manter e expandir o movimento do cururu, estão abertas as discussões para novas ideias de conservação desta tradição oral, hoje incentivada pelo instinto da preservação dos próprios cururueiros.

A reflexão abre possibilidade de melhora da relação da cultura, meios de comunicação e da política de Sorocaba.


Luiz Carlos Rodrigues é mestrando em Comunicação e Cultura pela Uniso, sob orientação do professor Paulo Celso da Silva. E-mail: luiz.rodrigues@uniso.br, paulo.silva@prof.uniso.br.