OUTRO OLHAR

Vila dos esquecidos


Carlos Araújo

Espie, tome tento: a vida é dura e as coisas sempre podem piorar. Pois foi o que aconteceu naquela tarde de abril, na vila de Miragaia, sul de Portogalo, lá onde as andorinhas fazem voos rasantes anunciando tempestade.

A lama deslizou montanha abaixo, veloz, arrastando tudo o que encontrava no caminho: pessoas, vegetação, aves, animais, postes, fiação elétrica, casas, estrebarias, carroças, carros, cercas de arame, baldes, porteiras. Era uma lama tóxica, composta de rejeitos de extração mineral, e a textura era espessa, porosa, exalava mau cheiro, podia causar doença e até matar.

Ninguém viu quando a barragem se rompeu, liberando toda a lama armazenada durante anos. Nenhuma alma teve como se prevenir e avisar com antecedência os outros moradores da vila.

A tragédia surpreendeu quem dormia e sonhava com bichos, quem tomava café com bolacha, quem estendia roupa no varal, quem estava na roça e se preparava para recolher a enxada.

Para quem ainda teve tempo de correr e escapou da morte, as impressões foram de terror. A lama avançava a uma velocidade maior do que a de uma corrida humana. E as partes altas eram distantes.

Só havia à frente a imensidão de um vale, que era engolido pela lama. Os poucos sobreviventes se salvaram graças aos acasos. Um deles escalou o torre da igreja e depois creditou a sorte ao seu anjo da guarda.

Os mortos foram soterrados pela lama e seus corpos nunca foram resgatados. Impossível escavar toneladas de rejeitos numa abrangência territorial a perder de vista.

Ninguém jamais saberá o número exato de mortos. Falam em quinze, vinte e poucos. Quem há de saber, se a quantidade de desaparecidos também é controversa?

Toneladas de lama percorreram o vale, soterraram toda a vila e atingiram o rio Alce, o maior da região de Portogalo. O lixo tóxico avançou muitos quilômetros e desaguou no mar. Nesse caminho de horror, toneladas de peixes morreram, cidades ficaram sem abastecimento, turistas fugiram das praias contaminadas.

As consequências culminaram com a extinção de atividade econômica em todas as regiões afetadas. Pescadores, gente da roça, vaqueiros, ficaram sem trabalho. Famílias começaram a passar fome. Muita gente teve que colocar a trouxa na cabeça e ir embora. Ou morria de inanição e doenças.

Mas muita gente, numa atitude de resistência, ainda ficou nos lugares mais próximos das ruínas de vila Miragaia.

Uma mulher, que usava véu negro na cabeça, saía do lugar onde passou a dormir e caminhava mais de uma hora todos os dias pela manhã, até chegar ao local das ruínas na Vila Miragaia.

Com a tristeza mais lancinante do mundo, a mulher estendia o olhar para o local onde imaginava que tinha sido a sua casa. Lá, morreram a mãe dela e a única filha. Ela sobreviveu porque, na hora do desastre, tinha ido à cidade para uma consulta médica.

A mulher estava atordoada. Não compreendia porque os acontecimentos tinham que castigar pessoas que, por natureza, já eram desamparadas, esquecidas, frágeis como galhos de árvores ressequidas.

Sem resposta, a mulher rezava. O luto estava encravado na sua sombra refletida pelo sol desértico, escaldante, impiedoso. E o castigo físico não a incomodava. As perdas da mãe e da filha acionavam as válvulas das dores da alma. E estas, sim, são insuportáveis, mais doloridas do que as feridas do corpo.

Quem a visse, diria para else abrigar em uma sombra. Ilusão. A sombra mais próxima ficava a quilômetros de distância. Ao redor, a paisagem antes verdejante deu lugar ao pântano de lama, pedregulho, gravetos secos.

Outras vítimas curtiam a dor da maneira que podiam. O silêncio e o desprezo do mundo marcavam cada lágrima, cada sentimento, cada desencanto.

Os responsáveis pela barragem acionaram os seus advogados e deram início a uma batalha judicial. Enquanto isso, as vítimas não sabiam o que fazer. Tinham esperança em recuperar um pouco da existência que lhes fora arrancada.

Quando a tragédia completou um ano, a televisão fez reportagens sobre as vítimas e as ruínas de vila Miragaia. No resto do ano, o lugar e as vítimas ficaram esquecidos.

No segundo aniversário dos acontecimentos, a televisão repetiu as mesmas reportagens. Nas outras estações do ano, tudo o que restou foi a indiferença.

Espie, contenha a indignação, e compreenda que tudo isso é o triste retrato de um país que não tem mais jeito.



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