OUTRO OLHAR

A um passo do futuro


Carlos Araújo

Quem era criança e adolescente nas décadas de 1960 e 1970 habitualmente ouvia dizer que o Brasil era o país do futuro. A ingenuidade de quem vivia essa fase da vida limitava a compreensão do sentido de esperança. Não se sabia quanto tempo faltava para o País alcançar o futuro.

O ufanismo dominava as mentes e os corações em grande parte da sociedade. Havia slogans de propagandas oficiais como a do "Brasil grande". Obras faraônicas como a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica eram exibidas como símbolos de tempos modernos. E a conquista do tricampeonato mundial de futebol coroava a felicidade de uma geração.

Em contrapartida havia um outro Brasil, endurecido pelo regime militar da época. Um Brasil marcado por censura, abuso de poder, arbitrariedade. Sobrevieram acontecimentos impactantes: a morte de Vladimir Herzog, o terror da tortura, a guerrilha do Araguaia, as greves no ABC paulista. Até que a década de 1980 começou com a explosão de uma bomba em um carro durante um show no Riocentro.

Naqueles anos, no plano internacional, as crises do petróleo contribuíram para dinamitar a economia baseada em promessa de milagre econômico. Os anos de 1980 continuaram tão difíceis ao ponto de serem rotulados como a década perdida. As perdas também se deram na política com a rejeição da emenda das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves em colégio eleitoral, seguida da sua agonia e morte. E logo depois foi eleito o primeiro presidente em eleições diretas desde a ditadura.

Até parecia que o futuro tinha chegado, que a volta dos ventos democráticos resolveria todos os problemas. E a marcha da história continuou a reservar sustos: queda de um presidente, sucedido por outros que ocuparam o lugar pelo voto popular. Veio o Plano Real e as melhoras na economia abriram a esperança de um futuro que parecia possível.

Vieram as décadas de 1990 e os anos 2000. Passaram novos presidentes. Outras ondas de crises sacudiram o país, a maior parte ligadas a escândalos de corrupção. Uma parcela dos brasileiros, ainda que pequena, atingiu tal ponto de desilusão que chegou a descrer da democracia. Houve quem passasse a achar que democracia era uma ilusão. A essa altura, ninguém falava mais em futuro. Era como se o tempo tivesse sido perdido.

Agora, quem viveu a infância e a adolescência nas décadas de 1960 e 1970 não resiste a fazer comparações, descontadas as formas de governo existentes entre as duas épocas. Enquanto naqueles tempos havia promessas de um "Brasil grande" como país do futuro, o que ofuscava crises mortais, agora os discursos oficiais também são de modernidade e sintonia com os novos tempos, num contraste frontal com a realidade.

Pois o futuro ainda não chegou e parece cada vez mais distante. Um exemplo (entre tantos) é a distância que separa a agitação política de Brasília do caos que castiga a vida de pessoas comuns. Governos cortam orçamentos de áreas essenciais, pesquisadores saem do País por falta de recursos em laboratórios, arrastões deixam motoristas acuados nas mãos de bandidos, a contagem dos mortos pela violência lembra saldos de guerra e suspeitos de corrupção são soltos ou nem chegam a ser presos.

Em meio ao choque desses dois mundos, surpreende o fato de o discurso do futuro voltar suas baterias para 2018. Chegaram até a criar um programa de ações com o título Uma ponte para o futuro. Se ter vivido essas décadas valeu alguma coisa, o aprendizado é o de que no Brasil não adianta procurar no calendário as soluções para crises profundas.

O que fazer?, pergunta o senso de inquietação. Esperar o futuro, talvez, mas isso os dirigentes políticos já disseram lá atrás e enganaram toda uma geração de brasileiros. Dirão também que, no país da casa-grande e da senzala, nada mudou.

Se vale uma ideia, a literatura, que é um campo de transposição da vida, pode indicar uma alternativa. Para esses casos, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett aponta uma interpretação desses tempos sombrios com Esperando Godot, a sua peça mais célebre.

Na história, dois personagens esperam um Godot que eles não sabem quem é, quando vai chegar nem muito menos o que significará para suas vidas. Qualquer semelhança com os brasileiros nessa hora amargurada não é mera coincidência.