OUTRO OLHAR

Segredos e limites da história


Carlos Araújo

A crise brasileira ensina o quanto o alcance da história é limitado como registro da sociedade em determinada época e lugar. Habitualmente a base dos acontecimentos permanece oculta e atravessa gerações como desafio para os pesquisadores. E o que se destina aos livros e documentos é apenas o equivalente à ponta do iceberg na superfície dos oceanos.

Um dos exemplos mais chocantes desse processo é o caso do homem da mala, aquele político flagrado em fuga com dinheiro de propina. Após ter sido preso, a Justiça lhe concedeu liberdade na semana passada e essa nova situação elimina as chances de uma delação premiada. Esse desfecho extingue a possibilidade de se provar por delação quem era o destinatário do dinheiro. E dessa forma, com a história incompleta, o vídeo não serve para nada.

Essa interrupção brusca gera desconfiança na seara de investigações que, por natureza, já é terreno fértil na proliferação de dúvidas. E o vídeo, que serviria para esclarecer os fatos, entra para os labirintos da política como obra inacabada. Não se explica de forma convincente como um suspeito flagrado em vídeo é solto. E em casos análogos, outros acusados permanecem encarcerados.

E assim vai o mundo: para uns, todo o rigor, enquanto que para outros, a generosidade. A variação de situações marcadas por dois pesos e duas medidas adquire proporções de realismo mágico se considerada a frequência com que esses contrastes se sucedem no Brasil. Histórias mal contadas são comuns nesse país tropical.

Os casos de censura em períodos ditatoriais são notáveis na contribuição para ocultar acontecimentos. Uma delas, a faraônica obra da construção da usina hidrelétrica de Itaipu (entre os governos brasileiro e paraguaio), registrou altos índices de acidentes de trabalho que não viraram notícia: a imprensa era censurada na época dos fatos (década de 1970) nos dois países.

O site "Paraná Online" (www.parana-line.com.br), em texto publicado em 26 de abril de 2010 com o título "37 anos do tratado de Itaipu", aborda o assunto a propósito do projeto de construção de um memorial em Foz do Iguaçu em homenagem às vítimas das ditaduras latino-americanas da época e aos trabalhadores mortos na obra da barragem.

Diz o texto: "Oficialmente, foram 132 os barrageiros mortos no canteiro que chegou a reunir 40 mil operários. Entretanto, Aníbal Orué Pozzo, assessor de comunicação da diretoria paraguaia, admitiu ao jornal La Nación, do país vizinho, que aqueles que afirmam que a cifra (de mortes) é maior podem estar com a razão. Segundo Orué, nem Itaipu, nem as empreiteiras que participaram da construção, contam com dados precisos sobre o total de falecimentos na obra, situação que gera cifras contraditórias e reforça o argumento daqueles que estimam que as mortes passaram de mil."

Eram os tempos sombrios da década de 1970. Assuntos como esses eram barrados como notícia. Foram necessários muitos anos para que pudessem ser resgatados. E a memória trágica é tão perseguidora que até um memorial foi construído em homenagem aos mortos.

Fatos como esses fazem pensar quantos anos se passarão até que as instituições brasileiras consigam desvendar os segredos, as conspirações, os crimes que permanecem submersos na rede de proteção dos mistérios insondáveis.

Para citar outros exemplos, muitas gerações foram necessárias para a revisão da Guerra do Paraguai, um genocídio do século 19 a serviço da Inglaterra, a potência mundial da época. Há pouca (quase nenhuma) historiografia sobre a escravidão negra no Brasil. E persistem dúvidas graves sobre as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, ocorridas num período de apenas nove meses na década de 1970.

Diante dos fatos, os discursos também são limitados. As palavras, dependendo de como são usadas e de quem se utiliza delas, tanto servem para construir versões como contradições. Isso vale para as relações particulares e igualmente para a política. E discursos sem provas não convencem ninguém. Especialmente num tempo em que até provas de crimes são ignoradas.

Quem sabe um dia, num futuro distante, os brasileiros saibam quem era o destinatário da mala de dinheiro. Só assim se fechará o ciclo de mais uma história interrompida na semana passada neste país devastado pela corrupção e bonito por natureza.