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‘Revés’, de Fábio Florentino, reflete sobre a finitude da natureza

Artista expõe, a partir de quinta-feira (23), seus grandes desenhos com giz e carvão
‘Revés’ reflete sobre a finitude da natureza
Em sua obra, Florentino apresenta uma linguagem questionadora sobre a relação entre o homem e o meio. Crédito da foto: Divulgação

Quatro painéis em desenho de grandes proporções, feitos diretamente sobre as paredes com giz branco e carvão, fazem parte da exposição “Revés”, do artista visual Fábio Florentino, que poderá ser vista a partir desta quinta-feira (23) na Escola Pró-Arte (rua José Nardi de Sousa, 37, Campolim). A exposição fica em cartaz até 26 de julho e estará aberta de segunda a sexta-feira, das 9h às 22h, com entrada gratuita.

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Tema recorrente na produção do artista, as relações entre o homem e a natureza já estiveram em evidência em 2017 na exposição individual “Réquiem botânico para Francisco”, com trabalhos que desenvolviam poética sobre as impressões acerca do vínculo entre homem e sagrado através da natureza. Agora, em “Revés”, o artista — sensibilizado por recentes desastres sócio-ambientais, como o rompimento da barragem de Brumadinho (MG), da poluição das águas por resíduos tóxicos e pelo descarte indiscriminado de plástico nos oceanos, além da liberação legal de pesticidas no agronegócio — parte para uma perspectiva bem menos otimista que procura colocar o visitante em estado de alerta. “É uma visão bem realista, atual e muito crítica, pois estamos fechando os olhos para o nosso principal território, a nossa casa, que é o nosso planeta”, comenta.

Além dos painéis de 3,5 x 3,7 metros, a mostra conta com desenhos sobre papel e objetos que, de acordo com a curadora Fernanda Monteiro, compõem um conjunto instigante e questionador sobre a relação entre o homem e o meio. “Assim nos deparamos com imagens sedutoras traiçoeiras, que, belas aos olhos, nos atraem para em seguida nos revelar um lado obscuro, opaco, de uma realidade criada pelo homem e capaz de destruí-lo. Trata-se de um suicídio lento, premeditado, com um certo requinte de crueldade a que o ser humano se põe a prova”, escreve Fernanda Monteiro no texto curatorial.

Finitude

Assim como a vida — e tudo na natureza — os trabalhos confeccionados em giz sobre uma parede preta carregam a ideia de finitude, já que ao contrário de telas com tinta óleo e técnicas de fixação, como a têmpera, “Revés” foi concebido para se apagar ao longo do tempo. “Desta vez foi o contrário. Como recebi o convite para a exposição [nas paredes da escola], o suporte me chamou e depois decidi a poética”, comenta. Neste caminho inverso à ordem natural de seu processo criativo, Florentino se dispôs a praticar “exercícios de desestabilização”, como a experimentação da técnica de encáustica, como é chamada a pintura com cera de abelha derretida em banho-maria, e a pintura também com as duas mãos. “Sou destro, mas me propus um exercício ambidestro. Essa imprecisão foi bem-vinda e acabou me tirando do território seguro”, revela.

O artista visual, que é também professor e pesquisador ambiental, comenta que nos últimos meses a liberação de vários pesticidas nas lavouras do Brasil causou a morte de meio bilhão de abelhas, número preocupante, já que são elas os principais agentes polinizadores de 70% das espécies vegetais usadas na alimentação humana. O problema é denunciado no painel “Fruto medular”, onde são incorporados padrões da geometria que representam a base organizacional de tudo o que existe, existiu ou existirá no mundo.

No painel “Inorgânico”, o artista aborda o excesso de plásticos lançados nos oceanos. A forma fluida de duas sacolas plásticas submersas, que dão vazão à inúmeras leituras, resulta em uma imagem ambígua, que seduz, confunde e preocupa. Já em “Silêncio hidrográfico — in memoriam”, o artista rende homenagem às vítimas de dos rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). A obra consiste em uma intervenção na imagem do brasão do estado de Minas Gerais, cujos dizeres em latim, que significam “Liberdade ainda que tardia” é modificado para “Esquecimento é sinal de omissão”, frase que, segundo o artista, “conecta as duas tragédias consecutivas”.

Inspirado pelo curso da natureza, onde tudo deságua no mar, a exposição conduz o visitante para as águas profundas dos oceanos, onde o artista expõe preocupação diante da invasão do plásticos, que não para de crescer e tem colocado em risco a fauna marinha. Ao final do percurso, os desenhos/denúncias são “amarrados” no painel “O caminhar”, que traz a imagem de dois fêmures gigantes dentro do símbolo triangular que representa a Terra e deixam um perturbador convite à reflexão. “Os fêmures fazem alusão à nossa caminhada. O que nós estamos fazendo nessa caminhada? Que marca queremos deixar para as gerações futuras?”. (Felipe Shikama)

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