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Relações étnico-raciais merecem atenção

Fórum de Educação sobre o tema, voltado aos educadores, acontece em Sorocaba no dia 29 deste mês
“É preciso partir da premissa do reconhecimento que todos nós somos humanos e por isso temos direitos, deveres e especificidades”, afirma José Marcos de Oliveira. Crédito da imagem: Pixabay.

“O que estamos vendo hoje é que as pessoas não estão tendo constrangimento nenhum em explicitar e exteriorizar o seu racismo. A gente vivia uma falsa democracia racial. Que bom que as pessoas não estão tendo pudor em se mostrar”, afirma José Marcos de Oliveira, presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (CMPDCN). Conforme ele, todas essas demonstrações de ódio só escancaram uma coisa: a população precisa de educação para as relações étnico-raciais.

Um caso recente ocorrido em Sorocaba, que se tornou público, foi o de uma estudante da UFSCar, vítima de racismo na própria universidade. O ato foi manifestado no dia 6 de novembro em dois banheiros do prédio do Centro de Ciências Humanas e Biológicas, onde foi pichada a frase “Vai morrer imunda”, ao lado do desenho de uma suástica. Na ocasião, o Conselho da Comunidade Negra emitiu nota de repúdio, enfatizando ainda que a situação ocorreu dentro de uma universidade, um ambiente que, no entender do Conselho, é pautado “pela diversidade de opiniões, pela livre expressão e pela convivência entre as mais variadas correntes de pensamento”.

Se dentro de uma universidade ocorre algo assim, o que esperar de outros ambientes? “Hoje as pessoas fazem filmagens inclusive mostrando a cara falando sobre seu preconceito, seu ódio. Mas isso é um fenômeno mundial, não está acontecendo só no Brasil. O que a gente considerava é que no Brasil, por ser um País multirracial, por sua miscigenação, não deveria ser assim. Mas aqui sempre existiu.”

Como representante de um movimento negro, José afirma que só quem é minoria, que sofre preconceito, sabe o quanto isso é doloroso e desestabiliza a pessoa psicologicamente, até mesmo afetando a família. “Alguns de nós conseguem, não digo superar, mas não se deixar abater. No entanto tem jovens que não encontram suporte e aí podem surgir casos de suicídio, violência doméstica… O racismo também mata.”

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Este ano, diz José, o Conselho recebeu oito denúncias de racismo, das mais diversas ordens. “Isso nos fortalece, não para tratar a ferro e fogo, mas avançar na educação, no exercício da cidadania, na escolha dos nossos representantes no sentido que a gente estimule a relação pacífica, no sentido de que a pessoa pode até não gostar da outra mas tem de respeitar. Quando gente estimula isso, a tendência é que as pessoas possam viver pacificamente.”

Preparação

E por falar em educação, é preciso formar professores que estejam preparados para levar para as escolas a história do povo negro. Como forma de preparar os docentes é que Sorocaba realiza no próximo dia 29 de novembro o 1º Fórum de Educação para as Relações Étnico-Raciais. José Marcos é um dos organizadores e acredita que esse conhecimento só chegará às pessoas por meio da sensibilização ao tema. “É preciso partir da premissa do reconhecimento que todos nós somos humanos e por isso temos direitos, deveres e especificidades. Somos iguais do ponto de vista dos direitos e diferentes do ponto de vista de nossas necessidades.”

Diferentes como? José exemplifica dizendo que a grande maioria dos alunos tem uma qualidade de vida que lhes permite sair da escola e estudar em casa. Já no caso das populações menos favorecidas, ainda é preciso ajudar a cuidar do irmão, ajudar nas tarefas de casa ou mesmo pode ocorrer o trabalho infantil. “Então a criança não tem tempo para o estudo e se tiver dificuldades também não conta com o suporte da família para ajudar na lição e aí, infelizmente, a sociedade não vê isso e olha para o estudante negro como alguém que não quer estudar, não quer subir na vida ou reforça o estereótipo que temos uma capacidade inferior do restante das pessoas”, observa.

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Se a análise for feita sob o ponto de vista do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), José ressalta que na linha de pobreza estão os negros, pretos e pardos, então no ponto de partida há desvantagem com relação ao restante da população. “Quem mora num bairro periférico tem menos estrutura urbana do que quem mora numa região central, assim como quem vai de carro chega seco e quem toma ônibus chega atrasado e molhado. Não dá para igualar.”

Nesse sentido, José afirma que o Fórum pretende desconstruir algumas visões equivocadas que permanecem até hoje e construir as relações de empatia, respeito, e que todos daqui a um tempo possam de fato ser iguais. “Se conseguirmos avançar na questão das cotas, se os alunos negros tiverem condições de se formar e de não largar o estudo, daqui a um período todo mundo partirá de um mesmo ponto. Aí ninguém vai precisar de cotas.”

Enquanto isso não acontece, José lembra que é preciso exigir o cumprimento da Lei 10.639, sobre o ensino da cultura afrobrasileira nas escolas. “Para garantir o debate das relações étnico-raciais para além de 20 de novembro [Dia da Consciência Negra]. É preciso falar desses temas durante toda a grade curricular, dizer o quanto a cultura africana contribuiu para a formação do povo brasileiro, porque nós aparecemos ainda hoje de forma muito negativa nos livros escolares. As escolas devem falar sobre a contribuição da cultura africana e garantir esse reconhecimento, porque é uma dívida do Estado brasileiro com a comunidade negra.”

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Na avaliação de José, a falta da abordagem desses conteúdos na formação do cidadão é que fortalece o racismo estrutural. O Fórum vem, então, com essa perspectiva, por isso o público-alvo são os profissionais da educação da rede pública municipal. Participarão como convidados representantes do movimento negro e pesquisadores das universidades que desenvolvem um trabalho nesse sentido como a UFSCar, a Uniso, a Anhanguera e a Universidade Brasil.

Confira a programação

O 1º Fórum de Educação para as Relações Étnico-Raciais será realizado no dia 29 de novembro, no Centro de Referência em Educação Dom José Lambert (rua Artur Caldini, 211, Jardim Saira).

9h – Recepção
9h30 – Abertura
9h45 – Palestra 1: Educação em Relações Étnico Raciais – Profa. Dra. Rosana Batista Monteiro
10h45 – Palestra 2: Prof. Dr. João do Prado falará sobre os resultados da implementação da temática em escolas de Guarulhos
12h – Almoço
13h40 – Palestra 3: Universidade Anhanguera – formação no curso de Pedagogia
14h10 – Palestra 4: Universidade Brasil – formação no curso de Pedagogia
14h40 – Oficina: Grupos de Trabalho – implementação na sua unidade de ensino do conhecimento adquirido
15h40 – Socialização para multiplicação: participantes da oficina assumirão o compromisso de fazer a implementação e o monitoramento. Em novembro de 2019 a ideia é avaliar. A intenção é que o fórum seja permanente
16h30 – Encerramento

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