fbpx
Cultura Mais Cruzeiro

Sorocabana é destaque no teatro nacional

Jéssika Menkel vem colecionando indicações em importantes prêmios pelo monólogo ‘Cálculo ilógico’
Sorocabana é destaque no teatro nacional
Durante o espetáculo, a atriz atribui a um erro das expressões numéricas a fatalidade que levou o seu irmão. Crédito da foto: Alberto Mauricio / Divulgação

A dor pessoal diante da morte trágica de seu único irmão foi o ponto de partida para o monólogo “Cálculo ilógico”, escrito e interpretado pela atriz sorocabana Jéssika Menkel, em cartaz no Rio de Janeiro, e que vem colecionando indicações em importantes premiações do teatro nacional. O espetáculo, que estreou no final do ano passado em São Paulo e permanece cartaz até 4 de agosto no Espaço Sergio Porto, no Rio, é finalista do Prêmio Cesgranrio — o de premiação com maior valor do teatro brasileiro –, em quatro categorias: melhor espetáculo, melhor atriz, melhor texto nacional inédito e direção, para Daniel Herz.

Definido pela artista sorocabana como uma “autoficção”, “Cálculo ilógico” se apropria de elementos do universo da matemática, como fórmulas e aplicação de cálculos, para traçar metáforas que buscam entender e superar a inquietação e o sofrimento diante da perda do irmão, que faleceu aos 21 anos em um acidente de motocicleta. Jéssika, que tinha 10 anos na época da fatalidade, interpreta Ella, uma personagem que enxerga a vida através de uma lógica matemática, calcula a probabilidade dos acontecimentos e busca razões junto aos números para compreender e explicar os acasos da vida.

Ao longo dos 55 minutos, em uma atuação que exige vigor físico, a personagem relembra e calcula acontecimentos, e atribui a um erro das expressões numéricas a fatalidade que levou seu irmão, na peça chamado de D+1. Vale destacar que a artista, que aos 18 anos saiu Sorocaba para morar no Rio de Janeiro e consolidar sua formação teatral, nunca foi uma exímia aluna de matemática e, por isso, para criar as metáforas que compõem o texto, precisou se debruçar com afinco sobre conceitos, teorias e fórmulas que fazem parte do universo dos algarismos. “O desafio foi usar esses termos matemáticos de forma poética. Eu quis trazer humanidade e significado a essas expressões numéricas”, relata.

A dramaturgia do monólogo, comenta ela, surgiu por acaso, de uma carta relâmpago que ela escreveu à mão para uma performance da faculdade. “Foi tudo muito despretencioso. Decidi relatar o que falaria para o meu irmão hoje, se ele estivesse aqui. Ele não teve a oportunidade de me ver no palco”, diz. A simples leitura da carta, no entanto, gerava impacto tão forte ao público que ela, aos poucos, foi se convencendo da potência do relato como gatilho para a sua estreia como dramaturga.

Recortes de vida

O premiado diretor Daniel Herz, que decidiu apostar no talento da jovem atriz e autora, afirma que o toque de genialidade do texto de Jéssika Menkel fica por conta justamente da carga ficcional. “A base é uma dor verdadeira da autora que, associada à criatividade, à inteligência e ao talento dela, produziu uma poesia cênica”, disse.

Jéssika Menkel durante o monólogo “Cálculo lógico”. Crédito da foto: Divulgação / Bia Chaves

Durante o processo de criação, na sala de ensaio, Herz realizou diversas provocações dramatúrgicas que fizeram com que Jéssika aprofundasse sua investigação em memórias, sentimentos, abismos e recortes de sua vida. “Chegava em casa instigada e escrevia muito, muito. Há ficção, mas há muito da minha essência”, lembra. Ao final dessa etapa criativa, a primeira apresentação foi uma sessão exclusiva aos pais de Jéssika, marcada por muita emoção e choro. O texto de “Cálculo ilógico”, acrescido de fragmentos que fizeram parte do processo criativo mas que foram excluídos do espetáculo, será lançado em livro ainda neste ano.

Elogiado pela crítica carioca, o monólogo é resultado de uma pesquisa iniciada há cinco anos pela atriz a cerca de teatro documentário e autoficção. Jéssica Menkel, que eventualmente retorna à cidade para visitar seus pais, afirma que gostaria de ter estreado o monólogo em Sorocaba. “Meu desejo é apresentar aí, porque será muito especial para mim, para minha família e para todos que conheceram e conviveram com o meu irmão”, diz. Falando com leve sotaque carioca, a atriz comenta que viveu em Sorocaba até os 17 anos, quando se mudou em definitivo para o Rio de Janeiro, para estudar artes cênicas pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde é formada.

Leia mais  Linc tem 76% de indeferimentos na avaliação documental

 

Em Sorocaba foi atraída pelos palcos em 2008, aos 17 anos, a convite de seu então professor de Física Tom Barros, que também era proprietário da extinta Escola Técnica de Arte e Comunicação de Sorocaba (Etac). No primeiro espetáculo, “Quem casa quer casa”, com direção de Carlos Doles, que estreou naquele mesmo ano no Teatro Pedro Salomão José, foi a protagonista e considerou a experiência tão apaixonante que, ao final do ensino médio, desistiu de prestar vestibular para Medicina e, com o apoio integral dos pais, mudou sozinha para o Rio de Janeiro para estudar teatro. “Desde pequena eu queria ser atriz, mas não tinha tido um contato tão profundo até então. Foi um divisor de águas, porque eu encontrei a profissão que eu quis e quero seguir para a minha vida”, conclui. (Felipe Shikama)

Comentários