Cultura

O espetáculo sob o ponto de vista da luz

Tão essencial quanto o ator e a música, a iluminação faz parte da alma de uma montagem
O espetáculo sob o ponto de vista da luz
A luz é um elemento essencial em um espetáculo teatral ou musical. Crédito da foto: Fábio Rogério

“Existem três coisas vivas no teatro: o ator, a música e a luz. Se qualquer um deles tiver problema, não tem espetáculo. São energias que transitam de uma para a outra, enquanto todo o resto é estático.” Essa fala, do dramaturgo, diretor e iluminador cênico Roberto Gill Camargo, que trabalha com a luz desde a década de 1980, resume a importância desse elemento para uma apresentação.

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Geralmente os espectadores reparam muito nas atuações, nas músicas, no cenário, mas os olhares se esquecem da luz. No entanto, essa presença silenciosa, se não for bem planejada, pode simplesmente acabar com uma cena ou mesmo todo o espetáculo. Para refletir um pouco sobre essa “personagem”, o Mais Cruzeiro de hoje lança um foco sobre ela. Com vocês, a luz!

Invisível

Para realizar qualquer apresentação artística é preciso ter conhecimento sobre iluminação, não apenas a parte conceitual como também dominar a técnica. Pois bem. As experiências de Roberto Gill nessa área começaram justamente quando o responsável pela luz no grupo do qual ele fazia parte, na década de 1980, saiu de cena. “Ficamos sem um técnico. Aí acabei fazendo e gostando, mas não sou muito ligado na parte técnica, trabalho mais com a estética, com o uso da luz dentro da cena”, diz.

O espetáculo sob o ponto de vista da luz
Roberto Gill se aprofundou na iluminação cênica com base em estudos de semiologia. Crédito da foto: Emidio Marques

Roberto Gill se aprofundou na iluminação cênica com base em estudos de semiologia (Roland Barthes, Umberto Eco, Luis Prieto e Anne Ubersfeld) e aos poucos foi ampliando para outras áreas conexas. Parte de seus estudos sobre funções da iluminação provém da abordagem de Roman Jakobson sobre funções da linguagem e de uma bibliografia sobre iluminação, que inclui desde Stanley McCandless e Jean Rosenthal até autores mais recentes. Todo o conhecimento adquirido rendeu a ele a produção de dois livros sobre o tema: “Função estética da luz” e “Conceito de iluminação cênica”.

Mas afinal, o que a luz pode fazer por um espetáculo? “Ela tem de revelar a ideia que está por trás da cena. Deve ter uma relação com a dramaturgia e com as coisas — e não com o olho do espectador. A luz para dança e teatro não é aquela como a de show, ela é ligada à ideia que está por trás de tudo. A materialidade do palco como um todo, cenário, figurino, objetos, maquiagem, todas essas coisas visíveis têm relação direta com a luz.”

Conforme Roberto Gill, a luz não é algo que chega de fora e enfeita tudo. “As pessoas que fazem isso, que exigem e direcionam o olhar, retiram do espectador o direito que ele tem de olhar pra onde ele quiser. Aliás, é ilusão do iluminador querer direcionar o olhar do público. No cinema europeu, por exemplo, não tem esse negócio de direcionar o foco. O cinema europeu mostra tudo e o público vê o que quiser ver.”

Luz silenciosa

O espetáculo sob o ponto de vista da luz
Andréia Nhur e Janice Vieira, do grupo Pró-Posição em cena de “Peças fáceis”. A imagem mostra bem a relação entre luz e corpo, entre luz e silêncio. Crédito da foto: Paola Aurora Bertolini / Divulgação

Quem trabalha com iluminação deve tomar cuidado com as cores. Roberto Gill comenta que gosta de estar em sintonia com quem fará a maquiagem, o cenário e o figurino. “Porque luz pode mudar a cor de tudo”, diz, acrescentando que a luz, às vezes, atrapalha ao invés de ajudar. “Não tem essa de concepção isolada. Ainda mais nos dias de hoje, em que as equipes fazem trabalhos colaborativos, tudo em cima de uma ideia, por isso o iluminador também tem de participar dos ensaios, etc.”

“No teatro [a luz] tem de ser silenciosa e invisível” – Roberto Gill Camargo

Gill observa que tem ator que ignora que existe luz. “A iluminação não é qualquer coisa que vem depois. Também não é como show, em que o cara chega e a luz que se dane, no show a luz tem de ser um espetáculo a mais, mas no teatro tem de ser silenciosa e invisível.”

O conceito trabalhado por Gill, aliás, é esse, o da luz silenciosa, aquela que o público não sabe de onde ela vem mas está interferindo psicologicamente na cena. “Também gosto da luz que sabe mostrar o ator, os corpos que estão na cena, que ressalta a beleza dos cenários, das formas, dos volumes. Gosto de trabalhar com mudanças de luz que fiquem bem imperceptíveis para quem está vendo.”

O espetáculo sob o ponto de vista da luz
Crédito da foto: Fábio Rogério

Roberto Gill, que já trabalhou muito como júri em festivais, diz que várias vezes ele e os colegas comentavam na cadeira sobre aspectos técnicos, relacionados principalmente à iluminação. “Tinha vezes que a gente sentia vontade de falar para a pessoa parar de saracotear com a luz. É claro que queria aparecer para ganhar o prêmio, mas não ganhava.”

Ele ressalta que de uns anos para cá muitas mulheres estão se destacando nessa área como Cibele Forjaz, Aline Santini, Nadia Moroz, Claudia Bem, Paola Bertolini, Camila Jordão. “Elas estão bombando, fazendo trabalhos excelentes. São cabeça boa, abertas a experiências, pensam a luz e se questionam como podem acompanhar a cena contemporânea, a performance”, elogia.

Mais de 20 anos dedicados à iluminação

Além da parte conceitual, a iluminação depende muito do domínio de técnicas, do conhecimento dos aparelhos e tecnologias e também de força braçal. Claudinei de Jesus Rosa, que trabalha no Teatro do Sesi, movimenta sozinho 126 pesados refletores, que mudam de posição e temperatura (tonalidade) de cor a cada espetáculo.

Claudinei precisa acompanhar as apresentações, pois se der algum problema, ele tem de dar um jeito de arrumar. Tem luz no teto, nas laterais, no centro do palco. Existe ainda uma estreita passagem no sótão do teatro, onde há cordas que sustentam as cortinas, todo o madeiramento do local e mais luzes para administrar.

Trabalhando com a parte técnica da iluminação há 25 anos, Claudinei conta que começou em 1994, na antiga Oficina Cultural Regional Grande Otelo. “Boa parte do que sei aprendi lá. Na época, veio a Sorocaba o reconhecido iluminador Guilherme Bonfanti para me ensinar. Fui contratado para cuidar disso na Grande Otelo”, recorda.

Claudinei, que é formado em História e lecionou nessa área, se rendeu de vez à luz. “Acho que fui o primeiro funcionário da Oficina Cultural, antes mesmo de ser inaugurada. Meu serviço era cuidar do teatro, assumir som, luz. Depois a gente acaba fazendo de tudo, né? Mas a função era produtor cultural.”

O espetáculo sob o ponto de vista da luz
“Acho que fui o primeiro funcionário da Oficina Cultural, antes mesmo de ser inaugurada”, lembra Claudinei. Crédito da foto: Fábio Rogério

Depois veio mais estudo. Claudinei foi para a USP, onde fez curso de extensão com Hamilton Saraiva, considerado o primeiro doutor em iluminação no Brasil. E desde então seguiram-se ao longo dos anos diversas especializações, com renomados profissionais da área. Em 1997, começou a trabalhar no Teatro do Sesi, mesmo assim continuou na Grande Otelo até o ano 2000. “Depois precisei optar e fiquei apenas no Sesi”, comenta.

Nesses mais de 20 anos no Sesi, Claudinei tem atendido os diversos projetos da unidade, dentre eles o “Viagem teatral”. Ele é quem monta a luz para os grupos. Já passaram por Claudinei as companhias Lume, Piafraus, Sobrevento, equipes da Unicamp, entre outros.

Além de ser operador de luz, Claudinei também faz a criação e montagem para artistas. Entre os shows de destaque estão o dos Mutantes, com Sérgio Dias, no Sesc Itaquera e Sesc Belenzinho, e a apresentação intitulada “Pena Branca”, de Zeca Collares. “Tenho recebido os melhores e maiores grupos de teatro do Brasil. Tive o privilégio de trabalhar com quase todos os nomes como Ingrid Koudela, Clóvis Garcia, Cibele Forjaz…”, orgulha-se.

O trabalho do operador de iluminação começa ao receber dos artistas um desenho do que precisam para o espetáculo. Eles apontam o tipo de refletor necessário, a quantidade, a posição… “Tem de mandar uma semana antes”, diz. Se acontecer de pedirem algo que não tem, é preciso conversar, fazer adaptações. “O Teatro do Sesi, em termos de equipamento, é o melhor da cidade, em qualidade e quantidade”, observa.

Claudinei então providencia tudo o que foi pedido e o grupo precisa chegar logo pela manhã para fazer os testes. “Eles precisam afinar a luz, acertar o foco, a temperatura da cor”, descreve. Mas o grupo tem de ter o seu próprio operador, pois Claudinei ficará encarregado do acompanhamento e de “salvar” o espetáculo em casos de imprevisto.

“Normalmente, quem pensou na peça concebe a luz para um determinado tipo de espaço e quer fazer a mesma coisa em outro espaço, mas tudo muda: a distância, a altura, a angulação… Iluminação é física, não vai dar o mesmo resultado e a pessoa pode ficar frustrada. Eu tento avisar para fazerem alterações, mas o pessoal é teimoso e não tem jeito.”

O espetáculo sob o ponto de vista da luz
Nos teatros em geral, há uma grande estrutura, em cima e nas laterais do palco, para abrigar os equipamentos de iluminação. Crédito da foto: Fábio Rogério

Claudinei conta que já viu muita coisa nesses anos de carreira, mas de tudo o que vivenciou uma coisa é certa: quem não está com boa vibração acaba comprometendo o próprio espetáculo. “O processo de montagem geralmente é estressante e recentemente uma pessoa muito mal-humorada quis ligar um monte de luz negra e todas as torres do chão pararam de funcionar. Era uma pessoa muito negativa, o resultado é que nada deu certo e ela foi embora brava. No outro dia, já estava mais calma e tudo funcionou normalmente.”

Para Claudinei, o palco é cheio de energia. “Entrou atravessado, vai sair atravessado, não adianta. Por isso acredito que a energia das pessoas influencia, sim, na luz. Se você chega de boa, parece que dá tudo certo. Eu procuro receber as pessoas de coração aberto, com alegria, para fluir.” (Daniela Jacinto)

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