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Livrarias apostam na criação de laços

Com a alta concorrência das vendas on-line, lojas físicas buscam aproximação e fidelização dos leitores
Livrarias apostam na criação de laços
A experiência de pegar o livro nas mãos, folhear, sentir o cheiro da publicação, são vistas pelos empresários do setor como um diferencial. Crédito da foto: Fábio Rogério

Cada dia mais raras, as livrarias que ainda resistem no mercado editorial buscam criar laços mais fortes com a comunidade, promovendo eventos literários e apostando no prazer de folhear livros sem compromisso. Em Sorocaba, desde 2016 várias livrarias fecharam as portas, entre elas a livraria Curitiba, a Livros e Cia e a Livraria do Elefante. Segundo a Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), há 58 estabelecimentos com essa razão social na cidade e, desse total, cerca de 30 são microempresas espalhadas por bairros da zona norte, leste e oeste. Aproximadamente 20 livrarias estão na região central. Conforme os dados da Jucesp, estão inclusos nesta razão social também papelarias e sebos.

A Livraria Nobel, na avenida Barão de Tatuí, é uma das tradicionais sobreviventes do mercado e, segundo o proprietário, Jurandir Gomes, o maior desafio é conseguir conquistar o cliente mesmo com os preços imbatíveis das lojas on-line. Apesar da grande quantidade de títulos e do amplo espaço, a livraria mantêm ares de aconchego, com profissionais sempre dispostos a dar dicas de boa leitura. “As menores é que vão sobreviver, porque fortalecem laços com a sociedade, são mais acolhedoras”, afirma o empresário, que há cerca de dez anos está no mercado.

Gomes conta que para se manter no mercado vem fazendo parceria com empresas e também com escolas. Ele diz que embora lojas virtuais consigam preços muito abaixo da tabela estabelecida pelas editoras, esses sites não vendem em grandes quantidades. “Na volta às aulas, várias escolas nos procuram para que a gente forneça os livros, assim como empresas, quando precisam de vários exemplares do mesmo título”, conta. Outra vantagem da livraria física, aponta, é a possibilidade de folhear sentindo a textura das páginas, apreciar capa e orelha e sentir o cheiro do livro. “Acredito que esse prazer só se encontra na livraria e é triste ver que hoje algumas pessoas não compreendem o papel social que esses espaços carregam. É triste hoje a gente ter mais farmácias do que livrarias”, afirma o empresário.

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Apesar de ter encerrado as atividades da Livraria do Elefante em abril de 2017, a escritora e ilustradora infantil Silvana Rando destaca a importância do mercado editorial na construção cultural do País. “A crise econômica obrigou as pessoas a cortar aquilo que não é essencial e infelizmente os livros são considerados supérfluos”, afirma. Silvana, porém, destaca a importância das livrarias, principalmente as infantis, por conta da experiência que a criança pode ter nesses espaços. “O livro infantil se apresenta com formas e papeis diferentes, ilustração, e isso desperta na criança o gosto pela leitura. Hoje Sorocaba não tem mais livraria infantil.”

Na Livraria do Elefante, recorda Silvana, eram realizadas várias atividades culturais e muitas vezes a loja era aberta para visitas de escolas públicas. “A livraria tem que ser um espaço para todos, para adquirir conhecimento e as pessoas precisam reconhecer a importância desse segmento”, afirma. A professora e livreira Maria Cristina Perez Vilas trabalhou na Livraria do Elefante e hoje atua na Livraria Nobel. Segundo ela, a missão das livrarias é promover o encontro das pessoas com os livros. “Eu sinto que sou a mediadora desses encontros e isso a internet não possibilita”, afirma.

As livreiras Graziela da Silva Leite e Cristina Borges Oliveira também são funcionárias da Nobel e contam que a agenda de eventos do espaço permite que os leitores se sintam integrados e a relação se torna mais pessoal. “Aqui também tem o espaço do café e muitas pessoas, nos seus horários de intervalo do trabalho, vêm até aqui para ler um pouco. Muitas vezes não compram, mas o vínculo que estabelecemos faz com que essas pessoas retornem”, conta Cristina. Graziela conta também que a livraria promove contação de história para crianças e também para adultos. “Toda última sexta-feira do mês fazemos essa contação para os adultos também”, relata. A vinda de autores também é uma prática adotada pelo espaço com o intuito de atrair clientes.

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Crise nacional

No mês passado a Livraria Cultura apresentou pedido de recuperação judicial. Famosa pelo apuro de suas publicações, a editora brasileira Cosac Naify encerrou suas atividades no fim do ano passado. A rede Saraiva também passa por uma reformulação, tendo fechado várias lojas e com previsão de novos encerramentos.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Marcos da Veiga Pereira, o cenário de crise que afeta todo o mercado demonstra a importância da proposta de criação de uma Polícia Nacional de Regulação do Comércio de Livros que, entre outras coisas, regulamente a definição dos preços dos livros. “A prática atual de precificação é nociva ao mercado e vai diminuir o número de livrarias, concentrando ainda mais o mercado”, disse Pereira, citando, como exemplo, os descontos oferecidos nas compras on-line, muitas vezes, superiores à margem de lucro de editoras e livrarias.

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A última pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, elaborada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), e divulgada em maio deste ano, pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Snel, aponta que o faturamento do setor caiu 21% entre 2006 e 2017, o que corresponde a uma perda de R$ 1,4 bilhão. O segmento de livros didáticos, por exemplo, registrou uma queda real no volume de vendas de 11% no período.

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