Cultura Mais Cruzeiro

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos

Festejo é responsável por arrecadar R$ 30 milhões para o município e gerar 1.150 empregos temporários
Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
Recinto conta hoje com uma área coberta com capacidade para 20 mil pessoas e parque de diversões com 25 atrações. Crédito da foto: Pedro Negrão / Arquivo JCS

Considerada o maior e mais tradicional evento do segmento do Estado de São Paulo, a Festa Junina Beneficente de Votorantim chega à 104ª edição cercada de números superlativos. Até o dia 23, a organização espera receber um público de mais de 360 mil visitantes. A festa, que neste ano conta com quase 20 atrações musicais de renome nacional, é fonte de receita para 18 entidades assistenciais que mobilizam mais de 7.200 voluntários, principalmente em suas barracas de comidas típicas.

De acordo com levantamento da Comissão Municipal de Assistência Social de Votorantim (Comas), que é a realizadora do evento, o festejo é responsável por incrementar a arrecadação do município em R$ 30 milhões e gerar 1.150 empregos temporários. Isso tudo, sem mencionar as dimensões da estrutura do recinto, na Praça Lecy de Campos, que conta com uma área coberta com capacidade para 20 mil pessoas e parque de diversões com 25 atrações.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
A festa começou de modo mais tímido e foi alcançando grandes dimensões com o passar dos anos. Crédito da foto: Arquivo JCS

Por trás desses números superlativos, a festa carrega uma história centenária de tradição e transformações. Jornalista e pesquisador da história de Votorantim, César Silva conta que o folguedo teve origem com uma pequena procissão em celebração ao Dia de São João Batista, concluída com uma quermesse com poucas barracas de comestíveis e de entretenimento. “A animação era grande, não só aos que moravam nas vilas operárias e eram devotos do Padroeiro, mas também a quem desembarcava dos bondes vindos de Sorocaba”, relata, em um de seus três livros já lançados sobre a história de Votorantim, que tiveram como fonte primária depoimentos de moradores antigos e “vanguardeiros”, como eram chamados os militantes do movimento de emancipação.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
O pesquisador César Silva. Crédito da foto: Divulgação

Apesar de muito antiga, o pesquisador contesta que a informação de que a festa estaria em sua 104ª edição, como é divulgado oficialmente, já que, para isso, o evento teria que ser realizado ininterruptamente ano a ano desde 1915. Em consulta às edições do jornal Cruzeiro do Sul daquele ano, não há qualquer menção à festa no então distrito de Votorantim que, como é sabido, foi cancelada em algumas ocasiões, como em 1932, por causa da Revolução Constitucionalista, e em 1948, em consequência de uma greve geral deflagrada na Fábrica de Tecidos Votorantim.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
Fazia parte da festa uma pequena procissão em celebração ao Dia de São João Batista. Crédito da foto: Acervo Cesar Silva

Segundo o pesquisador, a Festa Junina, em comemoração aos santos do mês (Santo Antônio, no dia 13; São João Batista, no dia 24 e São Pedro, no dia 29), passou a ser considerada pelos moradores do distrito somente em 1927, ano de criação da Paróquia de São João Batista, que se tornaria o padroeiro da cidade. “Nesse ano, aconteceu a primeira Festa do Padroeiro, que permitiu ano a ano, realizar procissão, missas e aos poucos a formação de uma quermesse, com algumas barracas de comes e bebes instaladas próximo da igreja e em frente do portão de entrada da fábrica de tecidos Votorantim”, detalha Silva. Alguns anos depois, afirma, a festa já atraía mais de 5 mil pessoas.

Tradição está se perdendo

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
A festa começou de modo mais tímido e foi alcançando grandes dimensões com o passar dos anos. Crédito da foto: Arquivo JCS

O aposentado Roque da Rocha Lima Neto, de 86 anos, guarda em sua memória as lembranças das primeiras vezes que foi à festa, ainda menino. “A gente se divertia bastante. Era muito tranquilo e simples. Hoje na festa é tudo muito moderno e tem muito comércio”, considera.

Com o passar do tempo, o evento da comunidade católica ganhou apoio da fábrica de tecidos Votorantim e precisou ser transferido para um recinto maior em meados da década de 1950, onde hoje é a praça Senador José Ermírio de Moraes, na Vila Dominguinhos.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
Roque da Rocha Lima Neto. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Mecânico aposentado e ex-árbitro de futebol, José Achilles Ribeiro de Campos, conhecido como Curió, de 76 anos, recorda que a festa também era marcada por quadrilhas juninas, barracas de comidas típicas e brincadeiras, cujas prendas eram fruto de doações das próprias famílias de fiéis, já que toda a renda era revertida para as ações sociais da paróquia. “A lembrança que eu tenho é que as barraquinhas eram feitas com tecidos da fábrica”, acrescenta.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
José Achilles Ribeiro de Campos. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Na avaliação de Curió, a festa começou a se descolar gradativamente de sua raiz religiosa e de suas características junina e caipira com o passar do tempo, especialmente depois que foi assumida pela Prefeitura e transferida para o endereço atual: a área em frente à nova igreja matriz, que depois de urbanizada na década de 1990 ganhou o nome de Praça de Eventos Lecy de Campos.

O jornalista César Silva detalha que a administração municipal assumiu a organização da festa em 1976, na gestão do prefeito Erinaldo Alves da Silva, por meio da Comas, mantendo o caráter beneficente, porém, ampliando a ação a outras entidades filantrópicas da cidade.

Ex-operador de trator da Votocel, o aposentado Geraldo de Meira, de 68 anos, lembra com saudosismo do festejo na Praça Lecy de Campos, ainda aberta, e com entrada gratuita. “Era mais livre e acessível. Hoje, tem que comprar [ingresso] e ficar na fila”, menciona.

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
Geraldo de Meira. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Já a chama da tradicional fogueira começou a se apagar, literalmente, na última década, por razões ambientais. “Chegaram a instalar uma fogueira artificial, mas ninguém deu bola”, comenta Silva, que se diz crítico à “perda das características originais da festa”, como os ornamentos de decoração, as brincadeiras e os gêneros musicais executados. “O que tem, hoje, de junino? Hoje, a festa é refém do consumismo e das atrações de massa. Era preciso pelo menos ter um espaço voltado ao tema, com fotos antigas”, sugere.

Corrida da fogueira ainda continua

O pesquisador César Silva revela que a Festa Junina de Votorantim também esteve atrelada à origem de outro tradicional evento do País: a Corrida de São João. Apesar das brincadeiras tradicionais do período típico terem deixado de existir ao longo do tempo, o evento esportivo — que nasceu como um complemento externo à programação da Festa Junina de Votorantim — permanece forte e chegará à 90ª edição no próximo domingo (16).

Festa Junina de Votorantim chega à 104ª edição cercada de superlativos
Além de ter o direito de acender a fogueira da festa, o ganhador da corrida era o primeiro a escolher uma dama para dançar. Crédito da foto: Arquivo JCS

A corrida, segundo ele, começou fazendo homenagem ao nome do padroeiro, mas também ficou conhecida como “Corrida da Fogueira” e “Corrida de Archotes”. “Isso porque dava ao vencedor o direito de acender a fogueira e decretar o início oficial do evento”, conta.

Ainda segundo Silva, as primeiras edições tinham como ponto de partida a frente da rádio PRD-7 de Sorocaba — inicialmente na rua 15 de novembro e depois transferida para a esquina das ruas São Bento com Santa Clara — e os corredores seguiam o percurso de quase sete quilômetros pela antiga estrada de terra do Lageado.

Leia mais  #TBT: Festa Junina de Sorocaba

 

Os atletas que não conseguiam completar a prova noturna contavam com caminhões que ofereciam a carroceria como carona. Além de ter o direito de acender a fogueira da festa, o ganhador da corrida era presenteado “com cortes de pano, quitutes e o direito de escolher uma dama para dançar uma música no animado baile junto ao tablado”, afirma Silva. (Felipe Shikama)

Comentários

CLASSICRUZEIRO