Cultura

Encontro reúne elenco em “A paixão do circo”

Felipe Shikama – felipe.shikama@jcruzeiro.com.br

Atores da velha guarda do circo-teatro resistem bravamente a qualquer sopro de inovação que possa abalar as tradições da companhia. Herdeiros da trupe, jovens atores, com grande bagagem acadêmica, tentam introduzir mudanças para modernizar a habitual encenação da Paixão de Cristo. Esse conflito geracional é o mote do espetáculo “A paixão do circo”, que estreia hoje, às 19h30, na lona da Biblioteca Infantil Municipal (rua da Penha, 673).

A peça é um projeto do Circo-teatro Guaraciaba, uma das mais tradicionais companhias circenses do Brasil, com 71 anos de história, em parceria com o Coletivo Cê, de Votorantim, referência do teatro experimental na região. Realizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria Estadual de Cultura, o espetáculo ficará em cartaz até 26 de agosto, sempre aos sábados e domingos, às 19h30, na Biblioteca Infantil. A entrada é gratuita e os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência. A classificação indicativa é livre.

Guaraciaba Malhone e Edimeia Rocha interpretam as irmãs Bartira e Bebel - CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

Guaraciaba Malhone e Edimeia Rocha interpretam as irmãs Bartira e Bebel – CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

O espetáculo inédito é uma meta-linguagem que mostra as tensões entre duas gerações de artistas, com visões divergentes na montagem do melodrama “O Mártir do Calvário”, escrito pelo teatrólogo português Eduardo Garrido em 1902. O enredo gira em torno das irmãs Bartira e Bebel, donas de um circo, que decidem encenar o clássico da Semana Santa, mas acabam entrando em conflito com os próprios filhos, Junior, Greta e Garbo e Bem e Hur, respectivamente, porque, contrariando as mães, eles querem que a história seja contada de maneira mais moderna.

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A ideia de revisitar o espetáculo, que por muitas décadas foi encenado pelo Circo-teatro Guaraciaba na Semana Santa, partiu do ator e palhaço Alexandre Malhone, representante da terceira geração da companhia. A proposta inicial era criar uma adaptação do filme “Jesus de Montréal” (1989), de Denys Arcand.

No entanto, ao longo do processo criativo, impulsionados pelas provocações e experiências pessoais do diretor convidado Fernando Neves — nascido em uma família de circo-teatro e reconhecido como um dos principais teóricos do melodrama do Brasil –, a dramaturgia de Rogério Guarapiran conduziu a montagem por caminhos mais inusitados permeados pelo humor. “Acabou virando um teatro dentro do teatro. A história é inspirada no próprio Fernando [diretor], que vai estudar e volta querendo inovar o circo-teatro da sua família […]. A juventude querendo inovar, rediscutir o texto, que é muito antigo e todo rimado, com palavras que nem fazem mais parte do nosso vocabulário, e a velha guarda querendo manter tudo do mesmo jeito de sempre”, diz o ator Júlio Mello.

Coincidência ou não, a parceria entre o Circo-teatro Guaraciaba e o Coletivo Cê celebrada neste projeto reúne no picadeiro diferentes gerações e visões artísticas que, diferentemente da ficção, convergem em respeito, aprendizado e crescimento mútuos. “Estamos abertos para qualquer texto, principalmente porque somos atores e fazemos o que gostamos. Temos que estar sempre renovando. É isso que nos mantém vivos”, destaca a atriz Guaraciaba Malhone, de 73 anos, uma das integrantes da velha-guarda da trupe fundada por seu pai.

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Bruna Moscatelli, Alexandre Malhone e Eliane Ribeiro estão no elenco - CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

Bruna Moscatelli, Alexandre Malhone e Eliane Ribeiro estão no elenco – CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

Júlio Mello destaca que a peça presta homenagem à história do circo-teatro, resgatando a memória de uma das peças mais célebres — e a mais sagrada — de seu repertório, revelando seus bastidores e propondo reflexões sobre a preservação das tradições. “A gente tem muito o que aprender com a velha-guarda. Eles têm muita disposição de fazer coisas novas. O espetáculo “Avental todo sujo de ovo” [que estreou em 2015], por exemplo, falava de homossexualidade e aceitação”, diz.

Também representante da velha-guarda do Guaraciaba, a atriz Edimeia Rocha, a intérprete de Bebel, admite que uma hora esse choque geracional ocorreria, para o bem da sobrevivência do circo-teatro. “As cabeças novas acharam um jeito de contar a história de Cristo de um jeito jovial; mas, com certeza, de um jeito único também. Eu conheço a peça antiga, então, há diferenças que, para nós mais velhos, serão desafiadoras, assim como seriam para os mais novos se fôssemos tratar da história tradicional. A Madalena, por exemplo, papel que eu interpretei pela primeira vez aos 16 anos, será uma mulher totalmente voltada para o seu tempo, cheia de ideias e pensamentos que eu não tinha. Então, com certeza será um projeto diferente e que vai marcar a minha carreira”.

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Guaraciaba, que interpreta Bartira, assinala que a nova experiência será desafiadora, já que, por mais de 40 anos, interpretou a Virgem Maria na encenação da Paixão de Cristo. “O desafio é maior porque eu sei as falas do texto original da peça “O Mártir do Calvário” de cor”, comenta. “Estou muito feliz. A peça está muito boa, e tem coisas [dos bastidores do circo-teatro] que mostram bem como a gente é mesmo”, complementa.

Hudi Rocha e Hércules Soares estão na peça, que conta com apoio do ProAC  - CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

Hudi Rocha e Hércules Soares estão na peça, que conta com apoio do ProAC – CAU PERÁCIO / DIVULGAÇÃO

Além de Guaraciaba e Edimeia, a velha-guarda da trupe no espetáculo conta com Hudi Rocha. O elenco conta ainda com Alexandre Malhone, Júlio Mello, Alexandre Miranda, Bruna Moscatelli, Eliane Ribeiro, Hércules Soares, e a cenografia é assinada por Jaime Pinheiro e o figurino e a maquiagem é de Luciana Malhone.

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