Cultura

Dorina Barros traz seu samba pela primeira vez a Sorocaba

Cantora carioca compartilha na sexta-feira seu repertório com o público sorocabano no Depois Bar
Dorina chega com a sua roda de samba
Dorina, que comemora 25 anos de carreira, estará com sua filha Bia Flor pela primeira vez se apresentando na cidade. Crédito da foto: Marluci Martins / Divulgação

Ela canta o subúrbio carioca como forma de celebrar um estilo de vida, onde as rodas de samba estão presentes, seja nas portas das casas ou nos quintais — e a união entre os vizinhos faz de todos uma grande família. É com essa bagagem, de quem cresceu no meio de bambas, que Dorina Barros consagrou seu nome entre as grandes vozes femininas do samba e agora, no momento que está excursionando em comemoração a seus 25 anos de carreira, Dorina virá pela primeira vez a Sorocaba. A “diversão”, como considera, está marcada para a próxima sexta-feira, a partir das 21h, no Depois Bar e Arte, com participação especial de sua filha Bia Flor.

Dorina, 56 anos, tem uma carreira marcada por premiações, desde o disco de estreia, lançado em 1996. O CD “Eu canto samba”, gravado em homenagem a Paulinho da Viola, lhe rendeu o Prêmio Sharp de “Melhor Cantora Revelação de Samba”.

Quatro anos depois, em 2000, chegou “Samba.com”, seu 2º CD, com composições de Candeia, Monarco, Wilson Moreira, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, e participação de Dona Ivone Lara. Esse trabalho foi apontado pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo como o “Melhor CD de Samba do Ano”.

Em 2001, mais um reconhecimento: Dorina é congratulada pelo Estado do Rio de Janeiro com a Medalha Chiquinha Gonzaga, premiação concedida anualmente a uma personalidade feminina que tenha se destacado profissionalmente em causas democráticas, humanitárias, artísticas ou culturais.

No ano de 2004, mais uma vez um trabalho de Dorina leva o título de “Melhor CD de Samba do Ano” e rende a ela nova indicação ao Prêmio Sharp (na ocasião, renomeado para Prêmio Tim de Música Brasileira), dessa vez como “Melhor Cantora de Samba” pelo disco “Sambas de Almir”, no qual prestou homenagem ao cantor e compositor Almir Guineto. O CD é considerado, até hoje, um marco na carreira de Dorina.

Outra conquista veio em 2008, com “Samba de Fé”, eleito pela mídia especializada como “Melhor CD de Samba do Ano”. Gravado ao vivo, contou com participações de Almir Guineto e Beth Carvalho, entre outros.

As produções continuam e atualmente Dorina planeja gravar algo em homenagem a Serginho Meriti. Em entrevista ao Mais Cruzeiro, a cantora relembrou um pouco de sua trajetória. Confira a entrevista:

MAIS CRUZEIRO – Dorina, é a primeira vez que você vem a Sorocaba. O que está reservando para o público?

DORINA – Vou apresentar um pouco dos meus nove CDs e dois DVDs, entre eles o trabalho que fiz em homenagem a Almir Guineto, mas terá também um pouco do bloco Mulheres de Zeca e Aldir Blanc. Estarei com a minha filha, Bia. Já fiz show em algumas cidades do interior de São Paulo como Campinas, Santos, Ubatuba, mas em Sorocaba nunca estive. Tomara que encha bastante pra gente brincar um pouco, a gente precisa fazer festa nesses tempos sombrios que estamos vivendo, fica difícil aguentar, só sambando mesmo.

MC – Pode contar um pouco sobre como foi o seu começo de carreira?

D – Eu não esperava ser cantora profissional, não foi planejado. Não pensava em cantar para ganhar dinheiro, ser famosa. Eu sempre trabalhei a vida toda e mesmo quando aconteceu de cantar profissionalmente, nunca pude ter o luxo de viver só de música, não dava. Samba não dava dinheiro na época. Mas escuta só como tudo aconteceu: eu fui alfabetizada com música. Quando eu estava no primeiro ano primário eu repeti e a professora passou a me criticar, não entendia, falava “como é que você não aprende?”. Eu morava no subúrbio e uma senhora que fazia a merenda da escola sabia tocar piano e ela é que começou a me ensinar, a alfabetizar, mas pelas músicas e aí eu aprendi. Eu já cantava, ia em centros sociais, onde desse eu cantava. Eu morava na mesma rua que o Zeca Pagodinho e ali tinha muito cantores regionais. As pessoas tocavam muito chorinho e samba no quintal, faziam rodas de seresta… Esses dias no aniversário do Zeca ele falou isso também, que não pensava em fazer sucesso. A gente não se imaginava no palco, era mais na rua mesmo, demorou à beça isso de ir pro palco e a gente tinha medo de não dar certo. É mais ou menos isso, minha carreira simplesmente aconteceu enquanto eu queria só me divertir.

MC – E ainda continua se divertindo?

D – Ah sim, senão já teria largado. Por meio da música a gente passa coisas boas para as pessoas, principalmente o samba. É um ritmo que alegra as pessoas. Funciona bastante, primeiro por causa da batucada.

MC – Você costuma gravar homenagens a grandes compositores do samba. Quais são suas referências artísticas?

D – Tenho muitas, viu. Principalmente daqueles que me ajudaram como o Zeca e o seu Monarco, que considero meus padrinhos. Tem também o Zé Keti, que me mostrou São Paulo. O Zeca ajudou com o CD. Tive de pedir para ser mandada embora do serviço para retirar o Fundo de Garantia para fazer e mesmo assim não deu. E ele ajudou. Tem também a Dona Ivone Lara, fiz muitos shows com ela. E claro tem mais referências femininas como Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e Elisete Cardoso, que também gosto muito de cantar.

MC – Você foi fundadora do projeto “Suburbanistas”, que tinha como principal objetivo manter viva a cultura do subúrbio carioca. Esse também é o motivo que te faz admirar o trabalho do Zeca. Por que considera importante falar do subúrbio?

D – Desenvolvi o projeto com Luiz Carlos da Vila e Mauro Diniz, era bem bacana. A gente cantava e contava histórias do subúrbio. O subúrbio é o que chega mais próximo do que a gente queria de vida para as famílias e o mundo, porque ali todo mundo respeita o próximo, ajuda o outro. O subúrbio, pelo menos até quando morei lá, tinha essa característica. Lá as pessoas têm seu próprio modo de viver, todo mundo cuida das crianças. Eu sei disso porque chamavam sempre a minha mãe quando eu estava na pracinha matando aula. Então pra que ter 300 carros, ganhar R$ 400 milhões e de repente não investir em segurança, como aconteceu com o centro de treinamento do Flamengo. Então a vida tem essas contradições que a gente tenta escapar pela cultura suburbana. Ali ninguém era rico mas dava para viver bem, não faltava comida. A gente não precisa de muita coisa pra ser feliz. O samba deixa todo mundo igual.

MC – Li que formou um bloco só de mulheres, né? Pode falar um pouco sobre a necessidade da união feminina? Ela é mais urgente nos dias de hoje?

D – Sim, formei o Mulheres de Zeca. O samba sempre foi muito machista, mas fui bem recebida, fui adotada pelo Zeca, mas eu via que tinha muita mulher, principalmente instrumentistas, que vivia na sombra, não tinha quem fizesse sol para elas. Por exemplo para tocar 7 cordas não podia ser mulher, então sempre lutei pela visibilidade da mulher nesse campo do samba. Ser feminina, ser mulher, não quer dizer que tem de ficar atrás, a mulher tem de estar no lugar que ela quiser, tanto na cozinha como sendo capitã do Exército, é por isso que eu luto, pela dignidade, para acabar com esses feminicídios. Mas agora está pior. Se um cara do alto fala para os de baixo que mulher só serve para isso mesmo, eles podem pensar que ficou permissivo, agora a gente tem de reconquistar esse direito, nossa luta está aí. Estou sempre envolvida.

MC – Como é viver no Rio num contexto de milícias, violência? Na sua opinião o Rio de Janeiro continua lindo?

D – O Rio vai ser sempre lindo. Aqui é a capital dos sonhos malandros, onde a gente se junta, se mistura, tem essa coisa das letras, das orações, batucadas e ladainhas, vai ser sempre um lugar assim, vai ter sempre um canto, uma esquina pra gente fazer roda de samba. Como diz Aldir Blanc, o Rio de Janeiro é de gente bamba.

Serviço

Roda de samba com Dorina
Sexta-feira, 15 de fevereiro, 21h
Depois Bar e Arte (rua Cônego Januário Barbosa, 123, Vergueiro)
Ingressos R$ 20
Informações (15) 3234-7082

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