Cultura

Documentário fará homenagem ao dramaturgo Carlos Mantovani

Curta-metragem vai mesclar depoimentos com fragmentos de cenas dos espetáculos mais marcantes do artista



Documentário fará homenagem ao dramaturgo Carlos Mantovani
O ator Rodrigo Scarpelli interpreta Mantovani. As filmagens, que prosseguem até amanhã, têm o palco do teatro como locação principal. Crédito da foto: Divulgação

Um dos mais importantes artistas sorocabanos do século 20, Carlos Roberto Mantovani será homenageado no filme “O dragão que me queima é o mesmo que me salva”, idealizado pela atriz e pesquisadora Renata Grazzini, que está sendo rodado e deve ser lançado em novembro. Realizado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura (Linc) no edital de 2018, o documentário em curta-metragem vai mesclar depoimentos de artistas, amigos, ex-alunos e familiar de Mantovani, com fragmentos de cenas dos espetáculos mais marcantes do diretor e dramaturgo morto em 2003 aos 50 anos. Renata divide direção, roteiro e produção com o cineasta Bruno Lottelli, autor do documentário “A noite do beijo — ontem e hoje” (2016).

O filme tem o palco do teatro como locação principal e destaca o legado deixado por “Manto” – como o artista era chamado por amigos – através de depoimentos de atrizes de diferentes gerações, das décadas de 80, 90 e 2000, que foram impactadas e tiveram suas vidas transformadas após participarem de cursos na extinta Oficina Cultural Grande Otelo e de montagens de espetáculos.
As filmagens do curta começaram sexta-feira (12) e prosseguem até segunda-feira (15), no teatro do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU das Artes), do Parque Laranjeiras, e conta com um elenco de onze atores, mais uma equipe técnica de seis profissionais.

Com direção de arte de Felipe Cruz, que estreou como figurinista em um espetáculo de Mantovani, o filme resgata e reconstitui o acervo iconográfico do artista sorocabano, com manuscritos, cartazes, croquis, recortes de jornal e até cenários, que formam a “ilha da memória”, para onde o espectador é convidado a mergulhar em experimentos cênicos que reencenem estes fragmentos de memória.

Documentário fará homenagem ao dramaturgo Carlos Mantovani
Filme reconstitui o acervo iconográfico de Mantovani, com manuscritos, cartazes, croquis, recortes de jornal e até cenários. Crédito da foto: Divulgação

 

Além de Renata Grazzini, o documentário terá depoimento das atrizes profissionais Melany Kern, Laura Guedes, Débora Brenga e Silvana Sarti, além de Fátima Mantovani, irmã do homenageado. Um “spoiler”: os depoimentos e fragmentos reencenados pelas atrizes são entrecortados por surpreendentes aparições de Mantovani, interpretado pelo ator Rodrigo Scarpelli.

Um registro do método cênico

Mais do que reverenciar a memória desse multi-artista — além de diretor, ator e dramaturgo, Mantovani também era artista plástico, dançarino e poeta –, Renata Grazzini afirma que o filme pretende destacar principalmente as características marcantes do processo criativo de Manto e como sua abordagem contribuiu na formação artística daqueles que tiveram a oportunidade de trabalhar com ele. “Não é uma biografia cronológica, mas um resgate atemporal daquilo que ele nos deixou”, diz.

A idealizadora destaca que o filme também pretende resgatar o método de desenvolvimento cênico usado por Mantovani, que jamais foi registrado em livros, mas que era fruto da experiência de uma vida. “E nós estamos tentando recuperar isso, porque teve uma influência gigantesca, na cidade e fora. São muitos os seus discípulos”, comenta Renata, que descobriu o palco do teatro aos 15 anos, quando participou de uma oficina com Mantovani sobre a obra de Guimarães Rosa, e de lá não saiu mais.

O cineasta Bruno Lottelli não chegou a conhecer pessoalmente Mantovani, mas, de certa forma, foi atingido em cheio pelo caldo cultural propagado pelo multi-artista. Ele afirma ter descoberto sua vocação pelo cinema também durante em uma oficina, na Grande Otelo, com o cineasta Marcelo Domingues em 2003, montador do filme “A outra margem”, de Joel Yamagi, que tinha Mantovani como protagonista. “Ver todo aquele processo [de montagem de um filme], com ele em cena, foi decisivo para a minha carreira”, detalha.

A proponente do projeto contemplado na Linc assinala que, ao lado dos aspectos cênicos e técnicos, como trabalho corporal e de voz, que Mantovani ensinou a várias gerações de atores e dramaturgos, o curta destacará a sua face de agitador cultural, que encorajava os artistas a realizarem espetáculos de forma independente, com poucos recursos, “a fazer com o possível”, lembra.

“O dragão que me queima é o mesmo que me salva”, título do filme, é pinçado de um poema de Mantovani publicado no livro “Redundâncias” e tem como base teórica a pesquisa de mestrado que a própria diretora está realizando no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP, em torno da produção teatral de Mantovani, orientada pela professora doutora Andréia Nhur, também sorocabana. “O filme é anterior à ideia de pesquisa acadêmica, porque queria que tivesse registro acessível, condensar informações pra dizer quem era ele, pra quem não o conheceu, saber e entender quem ele foi”, comenta. “O filme aborda o impacto da afetividade, que é um eixo que não cabe na pesquisa acadêmica”, comenta.

Documentário fará homenagem ao dramaturgo Carlos Mantovani
Crédito da foto: Divulgação

Depois de finalizado, antes da estreia, na Biblioteca Infantil Municipal, o filme terá exibições especiais, seguidas de bate-papo com os realizadores e artistas convidados, para alunos de escolas públicas, entidades de apoio a pessoas com deficiência, grupos de convivência da terceira idade, bem como escolas de formação de artistas. (Felipe Shikama)

Leia mais  Itu sedia mais uma edição do Interfoto
Comentários

CLASSICRUZEIRO