Cultura

Disputa para utilização do Teatro Municipal evidencia carência

Com grande demanda, ocupação é definida por sorteio. Situação aponta necessidade de mais espaços na cidade
De um total de 365 dias no ano, em 2019 estão disponíveis 123 datas para locação – Foto: Fábio Rogério/Arquivo JCS

As inscrições para a locação do Teatro Municipal Teotônio Vilela (TMTV) para o ano de 2019 continuam abertas até o dia 8 de fevereiro. Todos os anos, esse período do ano é sinônimo de estresse, principalmente para as academias de dança de Sorocaba. Isso porque cada uma pode agendar, no máximo, duas datas e quando a escolha coincide com a de outra escola, a decisão acontece por sorteio. Muitas consideram esse critério injusto, mas a situação evidencia, principalmente, a falta de espaços com estrutura de teatro em Sorocaba. No entanto, para a Prefeitura, os pontos alternativos são o suficiente.

De um total de 365 dias no ano, estão disponíveis 123 datas, entre os dias 26 de fevereiro e 22 de dezembro. Conforme a Prefeitura, “considerando o grande número de academias de dança na cidade, e visando o melhor atendimento a todas, é permitido solicitar no máximo duas datas no ano por academia”. Para as demais produções será permitido alugar, no máximo, nove datas por ano.

É fato que Sorocaba é uma cidade de intensa atividade artística para apenas um teatro — esse é, inclusive, um dos motivos citados por vários diretores, ligados à área das artes cênicas, para decidir por usar o seu próprio espaço para suas apresentações. Mesmo assim, o TMTV ainda é muito solicitado e alvo de disputas, estresse e até brigas.

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De acordo com uma bailarina, que preferiu não se identificar, geralmente a Prefeitura oferece como opção o auditório Pedro Salomão José, anexo à escola Getúlio Vargas. Porém, no local haveria uma escada muito perigosa para quem faz apresentações de dança, principalmente crianças. “Ainda tem o fato que o palco é de taco e eles enceram, então imagina como fica escorregadio.” Outra opção seria alugar a Sala Fundec. “Mas o local é mais apropriado para a música do que a dança, porque não tem coxia em um dos lados do palco. Na época do Teatro América, essa era uma opção viável, mas desde que foi fechado, não surgiu outro lugar”, observa. O Teatro do Sesi não pode ser usado pela maioria, pois no local não é permitido cobrar pela bilheteria. Já para se apresentar no Teatro do Sesc, o projeto depende de aprovação. Conforme ela, a falta de um espaço compromete o trabalho de um ano inteiro, já que as academias precisam garantir a apresentação de final de ano. “Sem ter um local para os alunos se apresentarem, não adianta. E se quiser alugar outro espaço, não tem onde.”

O que tem acontecido quando as datas coincidem entre as academias — e estas precisam ser sorteadas — é que nem sempre os dois dias de espetáculo podem ser consecutivos. Ao invés de uma terça e quarta, por exemplo, a única opção restante acaba sendo uma terça e quinta. “Quem trabalha com cenário precisa desmontar e depois montar tudo de novo”, diz. Outro fato que tem acontecido e que tem gerado descontentamento é que as academias de fora de Sorocaba disputam espaço com quem é da cidade.

Escolas de dança citam que não há, na cidade, opção de locais para apresentação de seus espetáculos. Foto: Emerson Ferraz / Secom Sorocaba

Variedade de atrações dificulta atendimento a todas as áreas

Regina Fonseca, proprietária de uma escola de dança na cidade, conta que o problema acontece há muito tempo. “Cada vez mais aumenta o número de escolas de dança. Mas sei também que já se tentou de tudo com relação à reserva de datas, como por tempo de trabalho, borderô, uma vez foi sugerido que a decisão levasse em conta o nível de trabalho das escolas mais antigas, e agora tem sido sorteio. É difícil. Realmente tem escolas menores e novatas, com elenco pequeno, mas qualidade é difícil avaliar porque a arte não se mede assim. Acho que todo mundo teria o direito.”

Regina ressalta que escolas de educação infantil acabam reservando datas no teatro para as formaturas dos alunos, o que também colabora para a falta de opção de dias para espetáculos. Como as reservas não podem ser para formaturas, geralmente as escolas têm preparado uma pequena apresentação dos alunos para os pais e essa tem sido uma forma de conseguir agendamento. “E isso poderia ser feito em outros espaços. Agora a gente trabalha com um segmento que preza pela qualidade do espetáculo, por isso teria de ser palco de um Teatro Municipal e a gente não tem outro na cidade com as mesmas características.”

Outras profissional responsável por uma escola de dança em Sorocaba, que preferiu não se identificar, gostaria que houvesse algum critério para desempate que não fosse sorteio. “Não deveria ser simplesmente enfiar a mão no saquinho e a escola que sair foi contemplada. Minha escola tem muitos anos de trabalho, deveria ter um privilégio, enquanto uma menina que se formou agora, vai na Prefeitura já consegue abrir uma escola na garagem dela, mas não enche o TMTV. Infelizmente acontece isso.”

Ela acredita que culturalmente já trabalhou bastante por Sorocaba. “Não estamos começando agora. Acho que sobre essa questão de datas, deveria ter uma comissão para decidir em relação a isso, se o espetáculo é cultural, se vai acrescentar para o público, se tem um trabalho de pesquisa, de produção. Às vezes você faz uma megaprodução e não tem onde colocar.” A bailarina observa que no ano passado soube de academias que conseguiram mais datas e estranhou. “O que será que houve?”, questiona. Outra crítica foi também em relação a escolas de educação infantil, que fazem suas formaturas no TMTV. “Elas não precisam de cenário, de pesquisa, nada, fazem a formatura e na segunda parte uma apresentação, mas por causa disso, abrem para elas. Muito chato, muito triste. Infelizmente a cultura sorocabana não é valorizada.”

Sorteio é a alternativa mais democrática, avalia Secult

Secretaria diz que dificuldade acontece pela preferência pelos meses de novembro e dezembro. Foto: Emerson Ferraz / Secom Sorocaba

De acordo com a Secretaria da Cultura (Secult), o sorteio é a maneira mais democrática de disponibilizar datas do Teatro Municipal. Mas atendendo ao que foi apresentado pelas academias de dança, irá incluir o edital na pauta de debates do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC).

Sobre o fato de outras cidades também disputarem as datas, a pasta diz que o TMTV é um espaço cultural e assim não possui barreiras geográficas. Com relação às escolas de educação infantil, a Secult afirma que elas possuem projetos culturais. “Em diversos casos as professoras das academias de balé da cidade são as responsáveis por esses projetos nas escolas. Não se trata de formatura, mas sim de projetos culturais para mostrar o trabalho realizado durante o ano.”

Para a Secretaria da Cultura, reservar um terço do ano para agendamento do principal teatro da cidade não é pouco. “A dificuldade é pelo fato da maioria das academias solicitar os meses de novembro e dezembro”, diz a pasta.

Já sobre escolas que conseguiram mais do que duas datas, a Prefeitura explica que foi feita uma proposta na qual a academia realizou seu festival de fim de ano no TMTV e, em contrapartida, ofereceu bolsas de estudo, na área da dança, para crianças e adolescentes de baixa renda. “Importante destacar que as datas que a Secult tem reservado para suas ações estão à disposição de receber diversas propostas iguais a essa, que possam ser significantes para os que mais precisam e para a cidade, para avaliação.”

A Secult destaca que reconhece a importância e a qualidade artística das academias. No entanto, utiliza as suas datas no teatro para fazer uma agenda mesclada de ações culturais, pois durante o ano recebe proposta de projetos diversos como, por exemplo, que são contempladas com incentivos da Lei de Incentivo à Cultura (Linc), Programação de Ação Cultural (ProAc) e Lei Rouanet. A pasta defende que o município conta com alternativas de espaços, como o Teatro do Sesc, Teatro do Sesi, Sala Fundec, auditório do Senac, auditório do Centro Arquidiocesano de Pastoral (CAP) e o Teatro do CEU das Artes. “O auditório da EM Getúlio Vargas atende a todas as normas de segurança necessárias para sediar espetáculos de todos os gêneros, inclusive os de dança”, disse. De acordo com a Secretaria da Educação (Sedu), não há “escada muito perigosa”, tampouco qualquer inviabilidade técnica para a realização de espetáculos.

Inscrições para uso seguem abertas

Para a inscrição, os interessados devem apresentar o formulário de solicitação de agendamento, devidamente preenchido, que está disponível em anexo do edital, além de toda a documentação necessária, que deverão ser encaminhados à Secretaria de Cultura e Turismo.

A inscrição deve ser feita de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, na Casa 52, localizada na avenida Afonso Vergueiro, s/n, no Jardim Maylasky. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (15) 3238-2222 ou pelo e-mail tmtv@sorocaba.sp.gov.br. Todos os documentos, como edital, portaria e anexos, podem ser encontrados no site da Secretaria de Cultura e Turismo: http://cultura.sorocaba.sp.gov.br.

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