Cultura

Daniel Lima traz a Sorocaba sua exposição interativa movida pela empatia

“Palavras cruzadas” chega ao Sesc com histórias de vida relatadas a partir do contato olho no olho
Uma exposição movida pela empatia
São 12 pessoas, em projeções em tamanho real, que contam suas histórias de luta e resistência. Crédito da foto: Divulgação

Uma arena circular convida o visitante a entrar e exercer a escuta de lideranças sociais, de grupos minorizados, na exposição interativa “Palavras cruzadas: lugares de fala contemporâneos”, do artista Daniel Lima, que será aberta ao público na próxima quarta-feira, dia 24, no Sesc.

A exposição consiste em uma videoinstalação interativa, na qual, ao adentrar neste circulo escuro com paredes de voal, o visitante encara 12 projeções de pessoas em tamanho real, a espera para contar suas histórias de luta e resistência. Os relatos, que variam entre seis a dez minutos de duração, no entanto, só são revelados quando o visitante demonstra empatia genuína. É que a instalação conta com uma tecnologia inovadora, com sensores de reconhecimento facial, que só reproduz o vídeo quando é estabelecido contato olho no olho — ou seja, quando o visitante se dispõe a olhar fixamente para o rosto de um dos personagens.

Além de dar visibilidade as diferentes lutas sociais do Brasil, criando no campo virtual uma espécie de “frente popular ampla”, a exposição traz ao centro da discussão o conceito de “lugar de fala”, amplificado recentemente por meio da obra homônima da filósofa Djamila Ribeiro. “E o lugar de fala só existe quando existe o ‘local de escuta’”, comenta Daniel. A tecnologia de reconhecimento facial foi desenvolvida com apoio do núcleo técnico do LabArteMidia — Laboratório de Arte, Mídia e Tecnologias Digitais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Bacharel em artes plásticas pela Escola de Comunicação e Artes da USP e mestre em psicologia clínica pelo núcleo de estudos da subjetividade da PUC/SP, Daniel também é diretor da produtora Invisíveis Produções e reconhece que a instalação alimenta uma nova discussão sobre os limites e possibilidades da linguagem audiovisual. “É uma instalação imersiva, mas essa imersão é experimentada coletivamente. Não é individual, como tem sido muito comum, com óculos de realidade virtual e fones de ouvido”, diz.

O artista destaca que o mesmo dispositivo tecnológico poderá ser usado futuramente em outras exposições imersivas com diversidade de depoimentos de pessoas de um mesmo grupo social, como, por exemplo, a população indígena ou quilombola. “Isso cria uma outra relação [com os depoimentos]. Não existe mais a linearidade de um documentário convencional. O visitante [da instalação] escolhe o roteiro que vai seguir, como se fosse o montador do filme”, comenta. A exposição foi aberta pela primeira vez em setembro do ano passado, no Sesc Vila Mariana.

Personagens

Uma exposição movida pela empatia
Mostra é do artista Daniel Lima. Crédito da foto: Divulgação

Os 12 convidados da instalação foram selecionados, pelos curadores Élida Lima e Felipe Teixeira, por ocuparem diferentes lugares de fala, ligados a diferentes movimentos. Estão representados na exposição “Palavras cruzadas” o movimento indígena, com David Karai; movimento quilombola, com TC Silva; movimento sem-teto, com Carmen Silva; Mães de Maio, com Débora Silva; pessoas em situação prisional, com o rapper Dexter; movimento das prostitutas, com Lourdes Barreto; movimento trans, com Amara Moira; cultura surda, com Edinho Santos; movimento secundarista, com Marcela Jesus; feminismo negro, com Juliana Borges; movimento LGBT, com Jéssica Tauane; e imigrantes, com Shambuyi Wetu.

Daniel Lima detalha que, para compor o ambiente virtual, as gravações dos depoimentos demandaram a criação de uma cabine escura, artifício técnico para que o entrevistado olhasse unicamente para a câmera, ou melhor, para os olhos do espectador.

Ao compor, ainda que virtualmente, uma frente popular com 12 importantes lideranças sociais do País, o artista ressalta que não se trata de dar visiblidade às minorias, e sim, amplificar as vozes de grupos que compõem a diversidade étnica e social do Brasil, porém que foram historicamente minorizados por normas sociais hegemônicas. “Artista não aponta solução, mas faz apontamentos. Acredito que uma frente ampla consegue pleitear melhor os seus direitos. Acho que essa luta conjunta é um manifesto de que um outro mundo é possível”, conclui.

Serviço

Exposição “Palavras cruzadas”
Abertura 24 de abril, 19h
Aberta até 21 de junho
Sesc Sorocaba (rua Barão de Piratininga, 555, Jardim Faculdade)
De terças e sextas das 9h às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30
Entrada gratuita

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